Esses dias postaram no grupo do facebook da minha universidade uma reportagem de um americano falando sobre o como os EUA deram enfase no incentivo e criação de cursos de STEM (science,  technology, engineering and maths) e como isso saturou o mercado na área de engenharia.

Em cima do texto começou-se um debate de por que estava tão difícil encontrar emprego, afinal fizemos tudo certinho:

  • Formamos em engenharia, um curso bastante “empregável”
  • Em uma universidade federal de ponta
  • Falando inglês fluente

Onde está o erro? Falaram que se fizéssemos tudo isso seriamos profissionais cobiçados pelo mercado!

Essa é sem dúvida uma pergunta complexa e varia caso a caso, porém gostaria de levantar algumas reflexões fugindo do óbvio de que você precisar de soft skills (boa comunicação, trabalho em grupo, etc) e outros bla bla bla já batidos.

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Antes porém é importante entendermos o nosso contexto, que está mudando rapidamente. O Fórum Econômico Mundial lançou um texto falando sobre a 4ª Revolução Industrial, caracterizada pelo aumento tecnológico em diversas áreas, borrando as fronteiras entre o digital, o físico e o biológico. Assunto que inclusive já discuti mais em detalhes em um dos primeiros textos do blog, dá uma lida aqui.

No texto (vale a leitura dele todo) o autor descreve várias mudanças que estão ocorrendo e que vão se acentuar com essa revolução. Destaco porém uma mudança no mundo do mercado de trabalho com o trecho abaixo:

“This will give rise to a job market increasingly segregated into “low-skill/low-pay” and “high-skill/high-pay” segments, which in turn will lead to an increase in social tensions.

Technology is therefore one of the main reasons why incomes have stagnated, or even decreased, for a majority of the population in high-income countries: the demand for highly skilled workers has increased while the demand for workers with less education and lower skills has decreased. The result is a job market with a strong demand at the high and low ends, but a hollowing out of the middle.”

Ou seja, a tendência são as desigualdades aumentarem. Trabalhos considerados low-skill serão muito mal remunerados, enquanto trabalhadores high-skills ganharão salários cada vez mais altos.

Aí você me pergunta: Mas caramba Gabriel, ser um engenheiro formado em uma das melhores universidades do país é “low-skill”?

No mundo globalizado e a beira da 4ª revolução industrial acredito que devamos responder duas perguntas para descobrir se seu trabalho é low-skill/low-pay:

  1. Meu trabalho já pode, ou poderá ser, substituído por máquinas?
  2. Meu trabalho pode ser facilmente substituído por outro trabalhador no meu país? Ou pior, meu trabalho pode ser substituído por um trabalhador de um país de terceiro mundo, mega populoso e com moeda fraca?

Se você disse sim para qualquer uma das duas perguntas, provavelmente seu trabalho não vai lhe garantir uma boa remuneração financeira no futuro.

Para exemplificar, no 1ª caso a tecnologia deve substituir trabalhadores braçais de chão de fábrica e trabalhadores braçais-de-computador, ou você acha que logo logo não teremos um app que vai digitalizar com confiança diversos dados para o PC, montar planilhas e conduzir análises?

No 2ª caso não é difícil perceber a migração de empresas multinacionais para a China e India. E não são só empresas grandes que se beneficiam da mão de obra barata do terceiro mundo. Hoje já existem vários sites que te permitem contratar pessoas do mundo inteiro para realizar determinada atividades que vão desde criar um logotipo, fazer uma arte, escrever um livro, revisar um artigo, aulas de inglês, assistente pessoal para responder e-mails, professores de música, etc. E sabe quanto custa? Muitas vezes apenas 5 dólares! Dá uma olhada nesse site chamado Fiverr.

Agora voltemos ao nosso amigo hipotético do começo do texto, um engenheiro formado em uma boa universidade e que fala inglês. Você sabe quantos indianos com essa característica, e provavelmente com mais conhecimento que você, é possível encontrar no Fiverr na área de computação/programação? Muuuuitos.

~ Mas, você me responde: Ah Gabriel, mas eu não sou da área de computação, sou engenheiro civil/mecânico/aeronáutico/ambiental/etc.

Então dá uma olhada no vídeo abaixo do Dr. Michio Kaku:

 

O que eu quero te mostrar com o vídeo? Não é só o sistema educacional americano que está falido, o brasileira também! Ou você se sente capaz de desenvolver tecnologia quando sai da universidade? E se sente preparado para administrar uma empresa? Ou para exercer a sua profissão, seja ela qual for?

Pois é, deixa eu te contar um segredo, provavelmente o que você aprendeu na universidade foi insuficiente, mal ensinado e provavelmente sem aplicabilidade direta no mundo real. A função da faculdade, que era te preparar para exercer uma profissão, foi executado de forma medíocre.

Agora adivinhe, se você não consegue gerar tanto valor para uma empresa, por que ela deveria te contratar? E ainda por cima pagar bem? Pois é… Agora você entende porque elas preferem contratar os indianos ou instalar máquinas.

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Tentando diversificar um pouco as áreas de atuação

No caso dos jobs mais técnicos, como do nosso amigo engenheiro, a situação é tão ruim que as empresas nacionais não investem em P&D e acabam comprando a tecnologia que precisam de fora, logo quando contratarem alguém da área será apenas para mexer na tecnologia de forma superficial, você não vai precisar assinar e nem desenvolver nada, logo vão te contratar como analista e não como engenheiro para te pagarem metade do que deveriam.

No caso de jobs mais gerenciais, um dos problemas está no excesso de mão de obra (de baixíssima qualidade)  disponível no mercado. Essa semana mesmo vi uma vaga que procurava gente graduada, com experiência em comércio exterior, pacote office avançado, inglês fluente e vivência internacional e mais algumas coisas para ganhar $1200! E esse não é um caso isolado, vasculhando a rede você acha diversos assim.

Por outro lado temos trainees de grandes empresas que, recém formados, tiram $6.000 por mês e que não vão demorar a receber promoções para ganhar ainda mais. Está vendo como o cenário com grandes diferenças entre low-skill/low-pay e high-skill/high-pay já está se manifestando?

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Ok, já que só o diploma não basta o que é preciso ter para fazer parte do grupo com grandes salários?

Creio que o primeiro ponto a considerar é se:

Eu sou o cara técnico que entende muito de uma coisa? Ou eu sou o generalista que vai coordenar e entregar resultado? Em outros palavras, você vai ser um gerente ou um especialista?

Para responder isso é necessário autoconhecimento. Já escrevi sobre nesse texto. Leia, não queime etapas!

Somente o autoconhecimento vai te permitir descobrir o que gosta e no que de fato focar.
Com essa pergunta respondida, agora é hora de focar em conseguir o conhecimento técnico ou a capacidade de gerenciar e entregar resultados. E para se diferenciar já vimos que não adianta só frequentar as aulas que outros milhares de estudantes frequentam todos os anos, falam inglês, participam da empresa junior da faculdade ou outra atividade extra curricular e possuem boa comunicação.

Consigo encher uma sala com 100 pessoas que tem tudo isso e muito mais. O que você tem além disso?

As possibilidades são diversas e únicas para cada pessoa, mas de modo geral é preciso:
Especialistas: Conhecimento profundo e prático da sua área. Com a internet você pode aprender muita coisa e ver cursos onlines com caras realmente muito bons. Mas, para além disso, é necessário aplicar o conhecimento e criar. Dá uma lida nos textos onde falo sobre cursos onlines e se você ainda não leu vai ler a última parte do texto sobre autoconhecimento.
Gestores: Mostrar que você é capaz de entregar resultado e você mostra isso ‘construindo’ coisas durante a faculdade, como por exemplo entregando uma consultoria fenomenal na Empresa Junior, fundando um clube de alunos ou ONG na universidade, empreendendo, etc. Mas é criar algo realmente foda, não participar da empresa junior da faculdade e falar que ficou reestruturando ela. Já falei das doenças do empresário junior e ela vale para outras entidades também. É fazer algo foda!

 

Passada a fase de 1) se autoconher e 2) aprender e se capacitar vem uma terceira fase que é se preparar para o processo seletivo. E o texto mais completo que já li sobre isso é do meu xará Gabriel Pereira e está nesse link.

Por fim, tem um estudo do Malcolm Gladwell, publicado no livro Outliers, onde ele fala o que diferencia uma pessoa de sucesso de outra e eu fiz uma análise so livro focado na carreira. Dá uma lida aqui.

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OBS1: O foco do texto é dar o norte. Agora é necessário executar essas coisas, o que mais você precisar aprender você vai aprender ao longo do caminho. Uma frase famosa no mundo do empreendedorismo diz que existem 10 passos para o sucesso, o 1ª é começar, os outros 9 você descobre entre trabelho duro, noites com poucas horas de sono e um xícara de café e outra.

OBS2: O texto foi propositalmente focado na questão de empregabilidade, não quis entrar na discussão social se essa sociedade que estamos caminhando é boa ou má. Se quiser refletir sobre isso fala mais do assunto nesse texto sobre Drogas, Mercado e Vulnerabilidade.

OBS3: Para ficar rico, além de ganhar dinheiro trabalhando, investir é um conhecimento essencial. Já escrevi sobre no texto sobre como eu comecei a investir em menos de um mês. Por sinal faturei mais de 10% do meu capital investido em menos de 6 meses “sem fazer nada”.

OBS4: Se quiser aprofundar no tema sobre comportamento de sucesso leia o texto sobre a “fórmula do sucesso” que descobri de um empreendedor que estava abrindo uma fábrica de aviões.

OBS5: Você pode reclamar como o mercado é cruel, injusto e te exige um monte de coisa ou aprender a gerar tanto valor para o mercado, de tal modo que você será quem vai definir seu salário. Você escolhe, ou como dizem os gringos: Up to you!

~ Gabriel Vinholi