Em um dos seus mais famosos artigos Peter Drucker fala sobre a importância de nos auto-gerenciarmos e um dos pontos dessa auto gestão é saber como você aprende (se você quiser ler: http://www.unilopes.com.br/sp/portal/biblioteca/arquivos/Gerenciando_si_mesmo.pdf) . Depois de me observar durante algum tempo percebi que no meu caso, para eu fixar algo eu preciso seguir alguns passos:

  1. Adquirir o máximo de conhecimento externo: Eu pesquiso e leio exaustivamente sobre alguma coisa – Especificamente ler, pois sou mais visual do que auditivo, então fixo muito melhor a informação quando leio;
  2. Eu sublinho e marco: Enquanto leio eu vou sublinhando os principais pontos, pois isso me permite voltar e ter uma visão dos principais insights em questão de minutos;
  3. Eu reduzo ao essencial: O sublinhado já reduziu bastante, mas para eu conseguir memorizar preciso sintetizar a ideia em poucas frases ou montar um framework visual;
  4. Extrapolar: Uma vez reduzido ao essencial eu sou capaz de gravar as ideias centrais e extrapolá-las para outros contextos e aplicá-las em outros cenários.

Por conta desse meu método de aprendizagem eu acabo sempre tentando sintetizar ideias e uma coisa que sempre tentei reduzir ao essencial foi um conjunto de palavras ou um framework que me ajudasse a trabalhar de forma mais efetiva e plena. Uma primeira tentativa disso foi publicada em um dos primeiros textos que escrevi nesse blog: http://ductu.com.br/a-formula-do-sucesso/

Ultimamente vim modificando meu framework de trabalho efetivo e plenitude e cheguei em 4 palavras que acredito cobrirem uma boa parte do que acredito: Amor, Coragem, Disciplina e Essencialismo. Vou passar um por um, começando do último:

 

Essencialismo

Nossa maior prioridade é proteger nossa capacidade de priorizar

Essencialismo é uma palavra que pode ter diferentes significados:

  • Pode ser a arte de reduzir algo ao essencial;
  •  Pode ser entendido como o famoso 80/20, ou seja focar seu esforço nos 20% que darão 80% de retorno. Ou seja, o essencialista reconhece que certos tipos de esforços geram recompensas maiores do que outros;
  • Pode ser um pensamento mais minimalista, de focar sua atenção e esforço em apenas em poucas coisas essenciais. Saber que quase tudo é ruído e pouquíssimas coisas tem valor excepcional.

Basicamente o essencialista substitui algumas frases em sua mente:

  • Tenho que fazer VIRA Escolho fazer
  • É importantíssimo VIRA Só poucas coisas realmente importam
  • Consigo fazer os dois VIRA Posso fazer de tudo, mas não tudo
  • Quase tudo é essencial VIRA Quase tudo é não essencial
  • Estou ocupado demais para pensar na vida e decidir o que é essencial VIRA Para ter foco é preciso escapar para criar foco

Olhando esses ponto uma coisa me salta aos olhos: O essencialista precisa escolher!

O problema é que nós temos uma dificuldade dantesca em escolher algo e, consequentemente, abrir mão de outras coisas. Isso surge pois a maioria das escolhas que fazemos são escolhas difíceis, ou seja, que não possuem uma única resposta certa, você não consegue dizer o que é melhor: Focar na família ou no trabalho, casar com fulano ou viajar o mundo, trabalhar em um banco ou estudar filosofia. Essas escolhas são melhores em diferentes pontos, mas nenhuma é melhor em todos, gerando angústia a indecisão.

O essencialista reflete sobre essas escolhas e decide uma vez, passando a pautar todas as decisões futuras por poucas escolhas mestras. Por exemplo: Se decido focar na família eu sei que vou ter que abrir mão de trabalhar 12h por dia e ponto. Isso tornará mais fácil fazer escolhas pequenas como olhar seu e-mail no final de semana ou não, aceitar aquela viagem a trabalho ou não, falar não para seu chefe, etc.

E sim, fazer essas poucas escolhas mestras é algo difícil, mas como escreveu Madeleine L’Engle: “É a capacidade de escolher que nos torna humanos”. Para aprofundar um pouco, veja esse texto sobre decisões difíceis.

De acordo com Greg McKeown, autor do livro Essencialismo: “Os essencialistas veem as soluções de concessão como parte inerente da vida, não como algo negativo. Em vez de indagar ‘Do que tenho que abrir mão?’, perguntam ‘Em que quero investir tudo?’. O impacto cumulativo dessa pequena mudança de ponto de vista pode ser profundo.”

É lógico que uma boa escolha mestra vai envolver estratégia e raciocínio. Porter já falava que Estratégia é fazer escolhas.

Outra vantagem interessante acerca do essencialismo é que hoje um dos grandes problemas da nossa sociedade é o excesso de opções e de informação. Filtrar todo esse conteúdo que chega até a gente e fazer milhares de escolhas ao longo do dia vai cansando nossa mente, fazendo com que você gaste energia e tempo apenas para decidir algo, ao invés de estar executando. O essencialista pula a etapa de decisão muito rapidamente, pois foi pautado por suas escolhas mestras e parte direto para a execução.

 

Disciplina

Discipline equals freedom

Uma vez que você fez suas escolhas mestras e decidiu o que é o essencial está na hora de executar. O problema é que executar dói, executar cansa, você sabe o que precisa ser feito mas fica inventando desculpas pra si mesmo. O caminho para cortar isso é a Disciplina.

Quando falamos em disciplina muitos viram a cara. Parece algo careta. Principalmente pra nós da geração Y que prezamos tanto a liberdade.

Disciplina parece ser o oposto de liberdade, afinal você se compromete com uma rotina ou com escolhas pré-determinadas, você entra em um ciclo de execução dia sim e dia também até completar algo.

Na verdade, o que vejo é que disciplina é sinônimo de liberdade.

Pense, estamos sempre procurando o caminho mais curto, o caminho mais fácil. Pense quando falamos de produtividade, existem milhares de livros, dicas e hacks, mas a verdade é que nada é tão efetivo quanto a disciplina.  Todas as dicas de produtividade na mão de alguém sem disciplina não chegam nem perto de alguém com disciplina que senta e faz o que precisa ser feito.

O mesmo vale pra dieta, no fim do dia o que importa é a disciplina de comer bem, dormir bem e se exercitar. Sem isso o resto é resto, é um atalho que pode até funcionar por um tempo, mas logo tudo voltará a ser como antes.

A pessoa com disciplina sabe do que é capaz e alcança o que deseja. Ela sabe a importância de às vezes abrir mão do que não importa e das recompensas de curto prazo para focar no que é realmente importante e vai lhe permitir atingir o que deseja.

Liberdade é poder fazer o que desejamos. A questão é que a maioria do que desejamos exige sacrifício, então substituímos por paliativos rápidos que trarão gratificação no curto prazo.

Pensa no seguinte: Você quer fazer uma viagem de navio, daqueles super luxosos. Mas isso exige dinheiro, exige economizar, exige acordar cedo e trabalhar. Você sabe que quer aquilo, mas não tem liberdade de fazer o que quer, pois para conseguir isso seria necessário acordar cedo, trabalhar e economizar. Em vez disso nos permitimos apertar o botão soneca e gastar nosso dinheiro com porcarias que no fim do mês nem sabemos para onde foi nosso salário.

Você quer um corpo escultural, mas isso exige uma rotina disciplina de exercícios e dieta. Em vez disso você continua substituindo esse desejo profundo pelo botão soneca e aquele brigadeiro.

O pior é que achamos que isso é liberdade, que liberdade é poder gastar nosso dinheiro como queremos, ou dormir a hora que queremos. Isso na verdade é só fraqueza. É nossa mente falando “você sabe que não vai conseguir a viagem que tanto quer, então abre mão disso e aproveita essas migalhas aqui”.

Vou deixar um vídeo do Jocko Willink pra ajudar nessa reflexão:

 

Coragem

“O correr da vida embrulha tudo; a vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem”

Uma vez fui em uma palestra do Flavio Augusto e ele disse que o empreendedor de sucesso precisava de 3 coisas: Visão, Coragem e Competência.

Fiquei refletindo sobre isso. Visão é para você saber aonde deve ir, que negócio abrir, onde focar (aqui existe uma intersecção com o nosso essencialismo). E sim, acho que sem dúvida isso é essencial para um bom empreendedor.

Competência vem logo depois de você ter a visão e começar o negócio. Você precisa ter competência para tocá-lo, algo inegável também.

Já a coragem, me parecia não encaixar tanto nesse framework. O Flávio tinha apenas 3 palavras e ele gastou uma delas com Coragem, algo que é uma ínfima fração de tempo na vida do empreendedor. A visão e a competência é algo que exige tempo e dedicação constante. A coragem é aquele momento que você está na cara do bungee jump e precisa pular, são só alguns segundos. E mesmo assim o Flávio gastou uma das suas 3 palavras pra definir o empreendedor de sucesso com coragem.

Depois que vivi mais entendi que o que separa muito dos empreendedores de outras pessoas era justamente a coragem. Quantas vezes você conheceu alguém que era extremamente competente e tinha uma mega visão, excelentes ideias, mas que nunca empreendeu, ou mesmo se arriscou mudando pra um emprego melhor ou tentando algo novo. Por outro lado, quantos empreendedores você já viu com menos visão e menos competência que seu amigo e que se deram bem?

A diferença foi a Coragem! Foi que um ficou só olhando enquanto o outro aceitou os riscos e se jogou.

A vida de ambos foi completamente transformada pela coragem. Coragem é algo difícil, se jogar é difícil, você não consegue treinar como a disciplina e a execução. Contudo, é essencial. E aí eu entendi porque o Flávio Augusto gastou 1 de suas 3 palavras pra Coragem.

Essa é nossa terceira palavra: Coragem. Coragem de dizer não para o que não é essencial. Coragem de dizer não para as gratificações de curto prazo. Coragem de se jogar.

Coragem não só de começar algo novo, mas coragem de encarar os momentos difíceis da vida, a perda daquele parente querido, a perda do emprego. Coragem de enfrentar as porradas que a vida teima em dar. Coragem de apanhar e continuar levantando ao invés de simplesmente desistir.

Segue um vídeo do Rocky falando dessa importância de termos coragem para continuar levantando e lutando.

Amor

Cada ser humano é tão único quanto a gente

Por fim o último elemento é o Amor. Poderia ter outros nomes, como conexão ou cuidado, mas acho que amor transmite melhor a ideia.

Amor com o próximo, se preocupar genuinamente com as outras pessoas que estão a sua volta. Saber que pessoas são mais importante que resultados. Que são muito mais complexas e fascinantes do que números.

Saber que cada ser humano é tão único quanto a gente. Quando entendemos isso passamos a nos interessas de verdade pelo outro, por sua história, por seus pensamentos, pelo seu jeito.

Quando amamos entendemos que não existe melhor ou pior, existe o diferentes e cabe a nós extrair o que cada um tem de melhor.

Só quem ama é capaz de criar um ambiente de amor e verdade, onde cada um está disposto a se sacrificar pelo seu time, por seus amigos, por sua família, pois sabem que todos os outros também seriam capazes de se sacrificar por ele. Quando criamos esse ambiente sabemos que todos estão juntos no mesmo barco e temos um ambiente de confiança e cooperação, no qual a comunicação ocorre muito melhor.

Só em um ambiente assim conseguiremos desempenhar o nosso melhor e só quando estivermos empática e verdadeiramente conectado com os outros que podemos acessar o seu melhor.

Um vídeo do Simon Sinek falando um pouco sobre esse conceito de construir locais onde as pessoas se sintam seguras e que acreditam que os outros estão de fato preocupados com elas:

Ainda no amor, vale ressaltar não só o amor ao próximo, mas amor com aquilo que vocês escolheu fazer. Escolher colocar tudo de si no que decidiu fazer com a única vida que você têm.

 

Quatro

Amor, Coragem, Disciplina e Essencialismo. São as 4 palavras em que consegui resumir um pouco do que acredito. 4 é um número que representa estabilidade, o número necessário e suficiente que garante  que uma estrutura será estável e não desmoronará. Pense nas mesas e cadeiras com 4 pernas.

Espero que essas quatro palavrinhas nos deem a estabilidade que precisamos ao longo da nossa vida para tomarmos decisões, buscar o que queremos, coragem de sempre continuar levantando e amor para encontrar felicidade na nossa busca.

– Gabriel Vinholi