Ontem peguei minha box com todos os DVDs de F.R.I.E.N.D.S e fiquei pensando que comecei a assistir o seriado antes de atingir a marca dos 20 anos — e antes do Netflix chegar ao Brasil. Acompanhava cada episódio, me emocionava em praticamente todos e internamente pensava: “Mal posso esperar meus 20 e poucos anos pra viver tudo isso”. Os 20 e poucos chegaram e com eles a Crise dos 20 e Poucos.

Eram tantas aventuras… Amorosas, profissionais, de amizade, de busca por uma carreira relevante, por viver uma vida simplesmente feliz. Um mundo um pouco distante pra quem ainda não havia entrado na faculdade ou começado a trabalhar.

O tempo andou, a década dos 20 passou da metade e me peguei assistindo novamente os episódios de F.R.I.E.N.D.S, mas dessa vez o pensamento era: Caralho, meus 20 e poucos chegaram! A minha vez de viver tudo isso chegou. Essa série poderia estar sendo sobre minhas aventuras.

Só que parece que quando olhava minha vida não via tudo aquilo que estava refletido na tela do computador. Cheguei aos 25 sem estar formado, sem estar recebendo o salário que imaginava, sem ter viajado o tanto que queria, sem ter vivido as aventuras que imaginei e sem estar rodeado por mais cinco inseparáveis amigos.

Também ontem, ouvi uma música da Sandy no Altas Horas — sim, a Sandy da Sandy e Júnior. A música se chama “Aquela dos 30” e alguns trechos não puderam deixar de me chamar a atenção:

Eu já tenho quase 30
Acabou a brincadeira
E aumentou em mim a pressa
De ser tudo o que eu queria

Tenho sonhos adolescentes
Mas as costas doem
Sou jovem pra ser velha
E velha pra ser jovem

E há pouco eu tinha quase 20
Tantos planos eu fazia
E eu achava que em 10 anos
Viveria uma vida
E não me faltaria tanto pra ver

E com mais uma mudança dessas que vem com a idade, percebi que tinha meus sentimentos expressos em uma música da Sandy.

E pensamentos que vinham se acumulando na minha mente há algum tempo começaram a burbulhar mais e mais. Há tempos venho tomando coragem pra sentar na frente do computador e escrever um texto revendo um pouco dos meus 25 anos e o que me trouxe até aqui. Muito inspirado por um texto fantástico da Thamires Mirolli, com o qual não pude deixar de me identificar, por isso peço licença para me aproveitar um pouco de seus pensamentos bem colocados.

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As vésperas de ter que dar um curso sobre self-pitch e storytelling fui obrigado a rever minha própria história e não pude deixar de perceber o quanto em minha vida tantas vezes fiquei com planos Bs, uma vez que não atingi os As.

Não fiz cursinho onde queria, não fiz medicina, não fiz psicologia, não estudei na universidade que seria minha primeira opção, não fui aprovado no primeiro estágio que tentei, não viajei o mundo trabalhando em um navio como havia imaginado tantas vezes antes dos 20.

É lógico que o fato de não ter atingido esses planos As me fez viver coisas que provavelmente nunca teria vivenciado. Em uma conversa com uma grande amiga, uma vez refletimos sobre o quanto às vezes a vida teima em dar voltas e mais voltas para nos fazer enxergar algumas coisas. Talvez se tivesse ido fazer o cursinho que queria não teria aberto minha mente com questões de gênero, se tivesse feito psicologia ou medicina não teria desenvolvido meu lado meu lado lógico-racional como desenvolvi, se não tivesse atrasado tanto minha graduação ou estivesse crescendo na velocidade que queria na carreira eu acabaria não tirando o tempo que reservo hoje para refletir e exercer outras habilidades mais criativas, como a escrita.

Os 20 e poucos são aquela idade em que tudo ainda é possível, em que uma pequena mudança de rota ou uma certa escolha pode nos levar para uma vida completamente diferente. Isso assusta. Assusta imaginar quantas vidas diferentes poderíamos viver em função de mudanças nas nossas escolhas. Quem são os caras que poderíamos ter sido se escolhêssemos diferente?

Tenho visto no espelho
Olhos vermelhos assustados
Procuro dias inteiros
No escuro, noites em claro

Os caras que eu poderia ter sido
As caras que eu poderia ter tido

No começo do ano ouvi muito essa música do Humberto Gessinger e comecei a entrar em uma vibe de refletir o quanto eu poderia ter errado (e estar continuando errando) em algumas escolhas, e isso me deixou em um estado de confusão mental. Refletia e refletia, mas me sentia cada vez mais paralisado diante das escolhas e dos futuros possíveis.

No entanto, na mesma música vem o complemento em forma de refrão:

Mas eu não quero sentir saudade
De um futuro pela metade
De um futuro que já passou
Levando caras que eu não sou

Sim, nossas escolhas nessa fase podem mudar todo o nosso futuro. No entanto, o mundo é construído pela aleatoriedade de várias micro escolhas, completamente impossíveis de serem administradas, que vão nos impactar de um modo que não imaginamos.

Sim, temos vários futuros possíveis, mas não adianta sentir saudade desses futuros pela metade, desses futuros que já passaram e levaram pessoas que já não somos.

Como Marta Kauffman e David Crane escreveram sobre F.R.I.E.N.D.S naquela box que eu peguei pra rever:

“Este show é sobre seis pessoas na casa dos 20 anos e que costumam frequentar uma cafeteria. Um café para insones. Tem a ver com sexo, amor, relacionamentos, carreiras… Um momento em sua vida quando tudo é possível e que é, ao mesmo tempo, estimulante e assustador. Tem a ver com a busca pelo amor, compromisso e segurança… E o medo de amar, de se comprometer e de não ter segurança. E tem a ver com amizade, porque quando se é jovem e solteiro, seus amigos são sua família.”

Meus 20 e poucos anos chegaram, com ele preocupações de relacionamento e carreira e a pressa para sermos tudo o que nossos eus adolescentes imaginavam. Isso é assustador… e também estimulante. É estimulante saber que você é o único no controle das suas decisões, sem pais e professores pra te apontar onde ir e pra você responsabilizar se as coisas derem errado.

É incrível saber que você tem o controle sobre suas decisões e que com esse controle vêm possibilidades e responsabilidades.

Nossos 20 estão aí e logo mais estarão os 30, então o único conselho que consigo pensar em dar pra mim mesmo nesse final de texto é: Permita-se aproveitar a felicidade da busca.

Busquemos algo, miremos o futuro, não desistamos dos nossos sonhos de adolescente e também aproveitemos a felicidade do caminho, os amigos, as incertezas, os passos certos e os errados. Afinal, tudo isso é o que constrói quem somos e quem seremos.

Bom futuro e rumo aos 30!

 

– Gabriel Vinholi


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