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Durante minha vida acadêmica a primeira atividade extra-curricular com a qual me envolvi logo no primeiro ano de universidade foi a Empresa Júnior (EJ). Inclusive sou uma das poucas pessoas que passou por duas empresas juniores, uma na UFV e outra na UFABC quando mudei de curso.

Para quem não sabe a 1ª Empresa Júnior surgiu como uma iniciativa dos alunos da ESSEC, universidade francesa, em 1967 e desde então se espalhou por todo o mundo. Os alunos sentiram a necessidade de aplicar o que aprendiam na faculdade e ver como funcionava na prática o mercado.

Com essa necessidade eles tiveram a ideia de fundar uma empresa sem fins lucrativos formada exclusivamente por alunos, mas com orientação de professores, que iria prestar serviços congruentes com seu curso de graduação.

Hoje temos EJs em diversos países, sendo que o Brasil é provavelmente um dos países com maior número.

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Desde o tempo em que estive participando do MEJ passei a observar como a minha e outras EJs funcionavam. Algo me chamou a atenção logo de cara: A maioria das empresas juniores NÃO prestavam serviços ao mercado, ou quando prestavam era uma ou outro projeto de modo bem ocasional.

Isso me intrigou, afinal se a ideia central de uma empresa júnior é vender serviços por que as empresas não faziam isso?! Uma pergunta óbvia, mas não tão simples de responder, afinal se assim fosse todas as EJs estariam fazendo dezenas de projetos.

Ao longo do meu tempo em EJ, em outras entidades estudantis e convivendo com diversos jovens que participam desse movimento cheguei a conclusão que uma boa parte dos empresários juniores sofrem de algumas doenças que os consomem e, em última instância, faz com que as EJs adoeçam também e não consigam realizar projetos para o mercado.

Esse texto é pra você empresário júnior que quer mudar essa realidade na sua EJ. Contudo já adianto que você não vai concordar com várias coisas que você ler aqui . Vai ser difícil para você assumir que você é portador de algumas dessas doenças, então vai tentar se justificar de todas as maneiras. Mas lembre-se que o primeiro passo para curar qualquer doença é descobrir e reconhecer que você sofre dela.

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AS DOENÇAS DO EMPRESÁRIO JÚNIOR

Doença #1: Complexo Sou Foda

Essa é uma doença que atinge principalmente diretores, na verdade ela atinge quase que instantaneamente qualquer pessoa que assume um cargo de diretoria. O principal sintoma que permite identificar quem sofre dessa doença é uma vontade incontrolável de reestruturar toda a empresa.

O afetado por essa doença passa a acreditar piamente que é muito foda e que todos os diretores antigos da Empresa Júnior não entendem nada e que por isso a EJ deve passar por uma reestruturação completa. Muitas vezes a reestruturação  envolve mudanças de estatuto, de visão e valores, de cargos, entre outras.

Selo-Sou-Foda

Você pode imprimir um adesivo com o selo sou foda de qualidade e dar para seu diretor que sofre dessa doença

Outro sintoma perceptível dessa doença, e que pode ser interpretado como um sinal de que a doença se tornou endêmica e atingiu todos os diretores da empresa, é quando passa a existir um discurso alinhado entre eles para atrair novas pessoas. O discurso soa mais ou menos assim: “Nossa EJ está em reestruturação, você terá uma oportunidade única de ajudar a montar um negócio e participar dessa fase única da vida de uma empresa!”

OBS: Alguns médicos e cientistas defendem que na verdade se trata de uma doença de cunho espiritual, na qual baixa o espírito de um grande guru da administração no recém-empossado diretor, que a partir do momento que assume passa a deter todo o conhecimento de sua área.

Principal problema causado: O principal problema dessa doença está relacionado com um ciclo vicioso de reestruturação, na qual toda a empresa gasta sua energia reestruturando tudo ao invés de começar a prestar serviços ao mercado. Mesmo se a empresa já foi reestruturada 5x nas últimas 5 gestões.

 

Doença #2: Alucinação do cacique

A doença tem esse nome originada na expressão “Muito cacique pra pouco índio”. Nessa doença uma alucinação geral acomete os membros da EJ de modo súbito, fazendo com que achem extremamente necessário uma empresa que não presta mais do que dois serviços por ano ter 7 diretorias para dar conta de todo o trabalho.

Muitas vezes vê-se a criação de diretorias de tecnologia da informação para cuidar de 3 computadores e uma impressora. Também é comum ver se a criação de diretorias de qualidade em uma empresa que não presta nenhum serviço.

doença empresario junior ti

Se a sua EJ tem uma quantidade de aparelhos de tecnologia semelhante a da imagem acima e possui uma diretoria de tecnologia de informação, ou afins, esse pode ser um sinal que a Alucinação do Cacique já infectou sua empresa

Principal problema causado: A Alucinação do Cacique compromete dramaticamente a eficácia da empresa júnior, fazendo com que tenham pessoas fazendo de tudo, menos o que deveria ser a sua função: Prestar serviços.

Doença #3: Abstinência de eventos

Os médicos acreditam que essa doença surja quando os universitários ingressam na EJ e veem seu tempo para festas reduzido, uma atividade essencial para a maioria dos universitários. Para tentar suprir essa carência a empresa júnior começa a realizar eventos de todos os tipos.

Alguns dos eventos mais organizados são palestras, cursos, semanas acadêmicas e até rifas e sorteios. Isso sem falar nas incontáveis reuniões.

Além da organização desses eventos os empresários juniores também costumam participar de modo incessante de todo o evento que aparece, como feiras de estágio ou de exposição das entidades estudantis da universidade, além de congressos estaduais e nacionais do MEJ.

Principal problema causado: A criação de eventos, junto com a reestruturação da empresa, passa a ser o foco principal da EJ, que passa a acreditar que está fazendo muita coisa produtiva.

A abstinência é tão forte que chega a ser perigosa, fazendo com que a EJ não perceba que ela se tornou uma Liga Universitária, um CA ou DA e que não é mais uma EJ. Afinal empresas juniores são reconhecidas por serviços que prestam ao mercado, enquanto essa nova entidade que emerge com inúmeros eventos faz de tudo, menos prestar serviços.

 

Doença #3,5: Vício em reuniões

Vista como uma variação da Doença #3. Afeta incontáveis empresários juniores. É marcada pela vontade incessante (chegando a ser considerada vício do mais altíssimo grau) de fazer incontáveis reuniões. Em seus graus mais avançados o viciado passo a precisar de reuniões de no mínimo 2h para poder suprir a necessidade que sente de reuniões.

Um sinal inegável desse vício incontrolável é que muitas coisas que poderiam ser resolvidas com um telefonema, e-mail ou até mensagem no whatsapp se tornam desculpas para marcar mais uma reunião. Característica típica do viciado.

Essa é uma típica reunião de empresários juniores que sofrem desse vício

Principal problema causado: Os membros chegam a gastar cerca de 80% das suas horas dedicas à EJ apenas em reuniões, impedindo que realizem projetos (e até que façam eventos).

 

Doença #4: Doença do título 

Pela criação incessante de diretorias a alucinação do cacique abre espaço para essa doença que pode ser identificada em gerentes que se nomeiam gerentes mesmo tendo só uma pessoa, ou até mesmo ninguém, para gerenciar. O empresário júnior afetado por essa doença pode ser reconhecido por suas assinaturas de e-mail e por ostentar com todo orgulho seu título na empresa júnior.

Essa doença é mais comum em quem busca a EJ como algo para por no currículo, mas que não quer fazer nada pela empresa.

OBS: Essa doença também é muito comum em membros da AIESEC.

Principal problema causado: O foco passa a ser conquistar títulos ao invés de fazer as coisas acontecerem.

 

Doença #5: Síndrome do funcionalismo público

Essa síndrome possui esse nome por afetar o funcionalismo público no Brasil e estar se expandindo para grandes empresas e EJs. O portador dessa doença tem uma necessidade insaciável de gastar todo o seu tempo criando burocracias sem sentido algum ao invés de sair da empresa e tentar vender seu serviço.

burocracia

A pessoa com essa doença passa a acreditar que faz parte de uma repartição pública júnior e que sua missão é se perder na burocracia inútil

É muito comum a empresa júnior contaminada com essa síndrome gastar todo o seu tempo se preocupando com coisas que ninguém vai ler no regimento interno, micro gerenciando seus subordinados, verificando se todos os membros colocaram a assinatura certa no e-mail, entre outras.

Principal problema causado: Faz-se questão de criar todo e qualquer empecilho para impedir que a EJ vá fazer o que nasceu para fazer, que é realizar projetos no mercado.

 

Doença #6: Normose

A EJ atacada por essa doença tem a necessidade de se sentir normal e semelhante a outras EJs, fazendo com que adote estruturas muito semelhantes as outras, sem se preocupar como isso se encaixa no seu modelo de negócio.

Principal problema causado: Essa doença é potencializada pela alucinação do cacique, fazendo com que todas as EJs criem diversas diretoras.

 

Doença #7:Alzheimer 

Essa é a doença final e mais séria. O empresário júnior após ser acometido de todas as demais doenças já citadas começa a sofrer de Alzheimer. 

Quanto acometido de Alzheimer os empresários juniores passam a esquecer diversas coisas e passam a acreditar que realmente estão fazendo algo produtivo, esquecendo-se completamente de para que a EJ foi criada. Os principais problemas causados são todos ligados ao esquecimento. Os empresários juniores:

Esquecem que o único jeito de aprender algo de verdade é colocando em prática, botar pra fazer, por a mão na massa, errar e acertar! Afinal, se você lembra do começo do texto foi para isso que as EJs nasceram, não é?

Esquecem que uma empresa júnior desenvolve seus membros através da prestação de serviços.

Esquecem que são outras organizações estudantis que desenvolvem os membros por meio de eventos.

Esquecem que o foco de uma EJ é: Realizar projetos, prestar serviços, vender, EXECUTAR!!!

 

Assim, já há quem defenda que as empresas juniores acometidas por essas doenças deveriam parar de levantar a bandeira do “Empreendedorismo”, que é algo essencialmente focado na prática e execução e começar a levantar a bandeira do funcionalismo público e/ou de empresas gigantes e engessadas em burocracia burra.

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Assim chego ao fim desse ensaio sobre as doenças do empresário júnior. 

Acredito no poder transformador que uma boa empresa júnior pode ter na vida de um universitário e é por isso que escrevi esse texto. Não consigo ficar quieto e ver tanta gente desperdiçando seu tempo com burocracia, evento e reestruturação. É lógico que essas coisas são importantes e precisam do seu momento, mas na maioria dos casos essas coisas vão surgir e se ajeitar naturalmente quando a execução começar.

Se for para lembrar só uma coisa desse texto, lembre-se que: Planejamento sem execução não vale nada! Reestruturar e não prestar serviço é o mesmo que nada!

A função de uma empresa júnior é sim, mais do que prestar serviços,  desenvolver pessoas, mas não se esqueçam que hoje existem uma infinidade de entidades estudantis e projetos na maioria das universidades brasileiras que fazem de tudo, e que cada um possui um meio de desenvolver os universitários:

  • O Enactus desenvolve levando o empreendedorismo e empoderamento para comunidades carentes;
  • O Movimento Choice desenvolve as pessoas através do contato com o tema de negócios sociais e de palestras;
  • As Ligas Universitárias, entre outras coisas, fazem eventos;
  • A AIESEC desenvolve líderes com o core no intercâmbio;
  • Os CAs, DAs e DCEs desenvolve os estudantes enquanto estes lutam por uma vida acadêmica melhor para os estudantes;
  • O LabX, da Fundação Estudar, permite que os jovens se desenvolvam organizando e ministrando um programa de liderança para outros jovens;
  • Iniciações científicas desenvolvem os estudantes através da pesquisa;
  • Projetos de extensão através do contato com a comunidade;
  • As Atléticas desenvolvem as pessoas através dos esportes (e às vezes festas);
  • Empresas Juniores desenvolvem os alunos através de serviços e projetos prestados ao mercado!

Se você acha que a Empresa Júnior não é exatamente o que você quer, ou você não tem afinidade com o jeito que o movimento espera te desenvolver, existem todos esses programas (e muitos outros) nos quais você pode participar.

Já se você realmente acredita que Empresa Júnior é o jeito ideal para você se desenvolver, que tal pararmos de criar burocracia, fazer evento, reestruturar e marcar reunião desnecessária para começar a EXECUTAR?

Vamos botar pra fazer galera!

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Ficarei feliz em ajudar e conversar com empresários juniores de todo o país que estejam afim de fazer acontecer e transformar esse no maior movimento do Brasil! Só deixo avisado pra quem quiser me mandar mensagem que sou chato, exigente e não suporto mimimi e desculpinha.

Abraço!