Como meus amigos sabem atualmente moro em Melbourne na Austrália, uma cidade eleita por vários rankings como a cidade com maior qualidade de vida do mundo. Gostaria de compartilhar um pouco das minhas percepções tupiniquins sobre a terra dos cangurus.

Durante a minha vida acadêmica sempre estive com as notas entre as 10% mais altas da universidade e fiz diversas coisas, quase todos os tipos de atividades extra-curriculares imagináveis como Ligas Universitárias, Empresas Juniores, Iniciação científica e outros, além disso estagiei em duas organizações muito boas. Contudo, sempre tive um ponto fraco no meu currículo: o inglês!

Sempre tive muita dificuldade com línguas no geral, e como mandava bem nas outras matérias do colégio fui deixando o inglês de lado, por conta disse já perdi algumas oportunidades de viagens e emprego. Como não adianta ficar de mimimi e sabia que não ia aprender tão fácil no Brasil resolvi aproveitar a oportunidade que o Ciência Sem Fronteiras oferecia para desenvolver essa “língua mundial”.

Além de aprender inglês queria aproveitar a oportunidade para conhecer outra cultura e fiz questão de ser bem específico. Sempre quis ver como o dito primeiro mundo funcionava, fiz questão de escolher Melbourne na Austrália por ser a cidade com maior qualidade de vida do mundo. Muita gente me perguntou como é viver aqui e quais as diferenças do Brasil, vamos lá:

1- Seu dinheiro vale mais

A Austrália tem o maior salário mínimo do mundo! São $17,29 dólares australianos por hora, algo em torno de $12 dólares americanos. Um australiano que trabalhe 40h semanais terá em um mês um salário de quase $3.000 (sem descontar impostos). 

Nós bolsistas do CSF recebemos $1800 dólares australianos por mês, ou seja, abaixo do salário mínimo deles, mesmo assim com essa grana é possível (lógico, sabendo economizar) em um ano comprar um MacBook, um iPhone e ainda viajar pra fora do país, além de fazer mais umas 3 viagens dentro da Austrália! Com menos do salário mínimo!

O pessoal que fala que o custo de vida aqui é caro nunca morou aqui. Pode ser caro para o estrangeiro que viaja, mas lembre-se que quem mora ganha em dólar e ganha esse salário que calculei aí. Se com $1800 da pra fazer tudo o que eu falei imagine com 3000! E esse é o mínimo, o salário médio de um australiano que trabalha 40h é $6.000!

Custo de vida caro quem tem é o Brasil. Temos um salário mínimo de $880 reais (o equivalente a 220 dólares americanos). Para compararmos em termos relativos, mesmo quando morava no Brasil e recebia mais que o salário mínimo nunca cheguei nem perto de imaginar a qualidade de vida e poder de compra que tenho aqui. Meu poder de compra é muito maior, seja em eletrônicos, seja para viagem ou até mesmo no supermercado. Lógico, existem itens mais caros, mas na média você seria muito mais rico aqui com um salário mínimo.

2- Segurança

Isso provavelmente foi o que mais me chamou a atenção assim que cheguei. É quase inacreditável para quem vive no Brasil, mas na Austrália é completamente normal uma mulher voltar para casa às 03h da manhã, andando sozinha e mexendo no celular. Não, ela não será roubada. E isso não ocorre pois existem centenas de policiais, isso provavelmente é consequência do item acima, afinal pra que se arriscar roubando um iPhone se posso comprar um com o salário mínimo?

Lógico que existem crimes, assaltos, casos de estupros, etc, mas a quantidade é muito menor que no Brasil, tanto que quando acontece algo assim vira notícia nos jornais por aqui. Enquanto isso no Brasil morre mais gente que num país em guerra e a criminalidade se tornou banal.

Só depois que você experimenta uma realidade como a Australiana que você se dá conta do absurdo que é o senso comum de “Não pode mexer no notebook/celular no ônibus, quem faz isso tá pedindo pra ser roubado”. Não, quem faz isso não está pedindo para ser roubado, quem faz isso está no seu direito de usufruir de um bem que comprou com seu trabalho em um local público. O mesmo vale para algumas prefeituras brasileiras que recomendam que seus habitantes não andem sozinhos de noite na rua. Galera, isso é um absurdo! No Brasil estamos perdendo nosso direito de ir e vir e de usufruir da nossa liberdade! O pior é que estamos aceitando isso como “o normal”!

3- O transporte público funciona

Não tenho carro aqui. Embora se quisesse poderia comprar um, a título de curiosidade você compra um carro popular ano 2001 por cerca de $2000 dólares australianos. Mas o foco é o transporte público.

Em São Paulo eu pegava todo o dia para ir ao trabalho a linha 10-Turquesa da CPTM. Um trem cheio às 08h da manhã significa que você só conseguiria entrar no terceiro que passasse e mesmo assim iria esmagado num ponto que quase desafia a lei física de que dois corpos não podem ocupar o mesmo espaço. Sem exageros, já teve vez (mais de uma) que vim com apenas um pé no chão, pois estava tão cheio que eu era empurrado a ponto de quase me levantarem.

Enquanto isso ao ver um trem cheio aqui eu penso “Que droga, hoje vou viajar de pé”. Na maioria das vezes vou sentado e mesmo quando está cheio e você precisa viajar em pé, a situação não chega nem perto da que eu encarava no Brasil.

Imagino minha avó tendo que pegar um trem da CPTM, eu teria vergonha de deixar isso acontecer. Parece transporte de gado, as pessoas viram animais brigando por um lugar para sentar quando as portas abrem (quem já pegou trem na estação da Luz ou Brás sabe do que estou falando).

4- Só mais algumas coisinhas

Esses são os principais pontos que me chamaram a atenção nesses primeiros 4 meses e meios por aqui, mas tem várias coisas bacanas as quais não vou me alongar, por exemplo:

  • Melbourne é rodeada de parques
  • A arquitetura é maravilhosa, misturando construções vitorianas com outras modernas
  • A cidade é multicultural tendo gente de diversos países morando aqui
  • Muitas atividades culturais de diversos tipos
  • Você quase não vê mendigos
  • Não existem grandes prédios comerciais em bairros residenciais. Os australianos dão muito valor a áreas residencias, então você só vai ver prédios grandes no centro da cidade.

5- Economia que funciona

A economia australiana é bem liberal, por exemplo a Austrália é um dos países com maior número de acordos de livre comércio com outros países, e o segundo país com maior número de parcerias público-privadas. Apesar disso atualmente a base da economia ainda está em commodities e serviços, porém com fortes investimentos em inovação e empreendedorismo. Em resumo a Austrália tem consciência que só conseguiu até hoje e poderá manter esse alto padrão de vida se a economia funcionar, não existe a crença no mito do governo grátis como é no Brasil. Para ter benefícios sociais é necessário primeiro ter dinheiro.

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Duas curiosidades interessantes:

(1) O quarto item mais exportado pela Austrália em termos de dólares que entram no país é educação e gastos dos estrangeiros relativos a ela. O número de estrangeiros estudando aqui é absurdamente grande, seja em cursos de inglês ou em universidades (a Austrália possui 8 universidades entre as 100 melhores do mundo).

(2) Para os interessados em mudar para cá, sabiam que empreendedores podem solicitar visto permanente para morar aqui? 😉

 

A Austrália mata a sua ambição

Agora uma consequência que não sei avaliar se é positiva ou negativa. No Brasil eu tinha uma forte ambição de progredir rapidamente na carreira e chegar logo em um salário de pelo menos $8.000/mês. Por quê? Porquê não quero que quando minha mãe ou meus avós vierem me visitar tenham que se submeter ao transporte público de gado, não quero que minha namorada vá todo o dia para o trabalho com medo de ser roubada andando na rua, não quero que meus filhos não possam ter uma vida confortável, não quero ter que morar longe do trabalho para morar barato e acabar me estressando com o trânsito. Além disso, quero ter a oportunidade de viajar dentro e para fora do país todo ano, quero poder comprar um celular e um notebook bom sem ter que me endividar, quero poder praticar um hobby mesmo que custe algum dinheiro.

Para alguns pode parecer egoísta pensar que uma pessoa precise de pelo menos $8.000 reais para escapar dessa realidade. Isso é classe alta no Brasil. Eu vejo $8.000 como quase um mínimo para termos uma vida boa e descente sem ter que nos submeter aos absurdos que vivenciamos no Brasil sem perceber, como a falta de segurança.

Lógico, para atingir esse nível salarial é necessário um ótimo trabalho o que te força a estudar e trabalhar muito. A ambição é alta e a vontade de crescer grande. É preciso sangue no olho todo o dia para estar entre os melhores da população que podem receber um salário desse calibre em poucos anos depois de formado.

Por outro lado quando cheguei na Austrália e percebi que com menos que um salário mínimo eu tinha uma vida que nunca tive no Brasil parece que relaxei. Confesso que até já me peguei pensando “nossa, ter um trampo normalzinho aqui e ganhar o salário médio de $6.000 dólares por mês é uma vida e tanto, não preciso de mais“. Em termos de qualidade de vida realmente não precisa de mais, acredito eu que recebendo $3.000 dólares aqui na Austrália (o salário mínimo) você terá uma qualidade de vida equivalente a quem recebe R$8.000 reais no Brasil.

Aqui vale a observação que se a motivação for só a qualidade de vida o pensamento é esse e sim ele é tentador. Mas para os que me conhecem fiquem tranquilos que continuo com sangue no olhos, não só para ganhar bem, mas principalmente pois acredito que a remuneração seja só consequência de um trabalho bem feito em busca de objetivos maiores.

 

E agora José, como fica o Brasil?

Lembro que pouco antes de embarcar para a Austrália encontrei um pessoal da minha universidade que tinha acabado de voltar e que eles falaram “nossa, não sei como vou me adaptar ao Brasil depois de ter vivido na Austrália“. Achei isso um tanto quanto exagerado na época, porém voltando a pensar nisso hoje em dia realmente confesso que vou estranhar bastante andar na rua tendo que olhar toda hora para os lados e abaixar drasticamente meus padrões de vida.

Sendo bem sincero, eu não imagino o Brasil melhorar seu cenário dentro dos próximos 10 anos (e provavelmente até mais). Diante disso é de se esperar que os índices de migração para países mais desenvolvidos esteja crescendo. No entanto cada um é cada um, conheço várias pessoas que não se adaptaram com a vida fora do Brasil e querem voltar para ficar, principalmente por conta da família, profissão e diferenças culturais.

Uma vez que você experimenta esse cenário do primeiro mundo a tentação de não voltar para terras tupiniquins é grande, não dando para culpar quem opta por essa opção. Por outro lado, para os que ficam a experiência internacional nos mostra o quanto precisamos evoluir na busca de uma sociedade mais justa, igualitária e com uma economia eficiente. Espero nos próximos anos ver pessoas cada vez mais competentes no campo de Públicas dispostos a fazer as mudanças necessárias.