No livro Outliers o autor Malcolm Gladwell tem como objetivo explicar porque algumas pessoas têm sucesso e outras não. Entre essas explicações destaco:

1. A Vantagem Inicial ou O Efeito Mateus

“Porque a todo aquele que tem será dado e terá em abundância; mas, daquele que não tem, até o que tem lhe será tirado.”

Gladwell afirma que pessoas de sucesso tiveram uma “vantagem inicial”, comparada a outras pessoas tão talentosas quanto. O exemplo usado para ilustrar são os jogadores de Hóquei Canadense. Quando analisamos a data de nascimento dos times profissionais percebemos que uma grande parte dos jogadores nasceram entre janeiro e março. Isso se deve ao fato de que por ser um esporte muito competitivo as peneiras começam desde cedo com meninos de 10 anos, sendo divididos por ano de nascimento, nessa idade 10 meses podem representar uma diferença significativa no desenvolvimento da criança.

Sendo assim quem nasceu nos primeiros meses do ano tem uma “vantagem injusta” sobre os mais novos e isso cria um ciclo vicioso, fazendo com que os mais velhos sejam selecionados pelos melhores times e consequentemente passem a receber mais investimento e treinar mais, fazendo com que a diferença de habilidade aumente cada vez mais. Assim podemos dizer que essas crianças nascidas primeiro tiveram uma vantagem inicial, algo que não mereciam ou conquistaram, porém desempenhou um papel crítico no seu sucesso.

Esse mesmo tipo de vantagem inicial não merecida pode ser identificada em diversos casos, mais alguns exemplos:

  • Uma grande vantagem de Bill Gates foi o fato de em que uma época que computadores ainda eram artigo de luxo sua escola resolveu adquirir um e ele teve a oportunidade de aprender a programar desde jovem;
  • Os Beatles tocaram uma parte de sua carreira em Hamburgo, onde era relativamente normal os bares colocarem uma banda para tocar por 8h seguidas, o que permitiu que eles tivessem muito mais treino em palco do que outras bandas têm durante toda a carreira;
  • Das 75 pessoas mais ricas de toda a história da humanidade 14 nasceram nos Estados Unidos num período de nove anos entre 1831 e 1840. A explicação é que nas décadas de 1860-70 a economia americana passou pelas maiores transformações da sua história, sendo o momento propício para enriquecer – Para pegar um exemplo mais recente pense na China de poucos anos atrás.
  • Um estudo que acompanhou diversas crianças com alto QI mostrou que o principal fator que diferenciou as que atingiram sucesso profissional das que não atingiram, foi o fato de terem nascido numa família de classe média ou alta ao invés de uma família pobre. A explicação dada é o que chamaram de “Cultivo Orquestrado”, onde os pais de classe média se envolvem mais com o tempo livre dos filhos, os colocam em mais atividades e eles involuntariamente passam um sentido de “ter direito” – enquanto os de classe baixa se sentem inferiores. Assim é como se estivessem “cultivando” melhor as crianças.

Os exemplos continuam aos montes no livro.

 

2. A Regra das 10 mil horas

Porém, Gladwell traz outras pesquisas que mostram que o tempo médio que uma pessoa treina para se tornar muito bom em algo é 10.000 horas, ou seja, não basta você apenas nascer com a vantagem inicial, você também precisa treinar muito. Bill Gates teve uma vantagem, mas se não gastasse noites em claro programando provavelmente não chegaria onde chegou; Os jogadores de hóquei que após a peneira inicial passaram a treinar muito mais; As crianças de classe média tinha mais tempo disponível e estímulo para estudarem e se aperfeiçoarem mais, etc.

A grande questão na maioria dos casos não é que a vantagem inicial se trate apenas de um “dom”, mas sim de algo que permitiu que a pessoa tivesse mais oportunidades de treinar 10.000 horas, como nos exemplos do parágrafo acima.

Outro ponto importante a destacar aqui é que diversas outras crianças tiveram acesso ao mesmo computador que Bill Gates, milhões de pessoas nasceram nos EUA de 1830 e várias outras crianças nascidas em janeiro entraram em times de hóquei. Porém nem todas essas pessoas tiveram sucesso. O fato de terem tido a vantagem inicial não quer dizer nada se não for acompanhado de trabalho duro e de 10.000h de treino.

 

3. Depois de um ponto não importa mais

Nessa pesquisa que já citei onde pesquisadores acompanharam crianças com um QI alto um outro fato é muito interessante. Os pesquisadores descobriram que a relação entre QI e sucesso existe, mas só até um certo ponto. Depois que alguém alcança um QI em torno de 120, mais pontos não parecem se converter em uma vantagem no “mundo real”. 

Algo interessante é que o autor traz uma lista das faculdade onde os últimos 25 ganhadores do prêmio Nobel de química estudaram e não, o nome de Harvard não se repete várias vezes, porém também não existem faculdades “meia boca” na lista. O fato é que a diferença de pontuação no “vestibular” americano entre um aluno que entra em Harvard ou numa outra boa universidade geralmente não passa de 15%. Esses alunos provavelmente já estão num patamar onde um maior potencial lógico/racional não faz tanta diferença.

No caso do Brasil pense, por exemplo, em um aluno que passa no ITA ou na USP e um outro que vai fazer engenharia em alguma boa universidade Federal, dificilmente essa diferença na pontuação das provas será significativa na vida real. Depois de certo ponto não faz diferença. E aqui a vantagem inicial não se propaga tanto, afinal a qualidade de ensino entre o ITA-USP e outras boas universidades federais é praticamente a mesma. Por isso também que várias pesquisas mostram que quem entra com cotas na universidade tem um desempenho tão bom quanto (ou até melhor) que alunos não cotistas.

Isso se repete também nos esportes, no basquete por exemplo quase todos os melhores jogadores são altos, mas depois de uma certa altura não importa se o cara tem 1,95 ou 2,02.

A questão é que inteligência ou porte físico faz sim diferença, mas só até certo ponto, depois disso vão entrar várias outras características para definir se a pessoa será ou não bem sucedida, como por exemplo inteligência emocional, capacidade de comunicação, etc.

 

O que eu faço com isso?

Temos até agora que para ter sucesso precisamos (1) nascer no lugar certo e no momento certo; (2) treinar 10.000 horas e; (3) ter pelo menos um certo nível de alguma característica que iremos explorar (inteligência, altura, etc).

Desses três pontos acredito que o 1ª e o 3ª merecem uma consideração especial. Sobre as 10.000 acredito que todos concordem que para ter sucesso a maioria de nós vai ter que ralar muito e não há muito o que discutir.

Ser bom o suficiente em que?

Podemos atingir o sucesso e a excelência de várias maneiras, podemos ser cantores, atletas, cientistas, políticos, juízes, empresários, etc. Cada uma dessas carreiras exige habilidades diferentes, para algumas o QI vale mais que outras, podemos dizer o mesmo em relação ao fenótipo, habilidade de comunicação, voz, etc.

Alguém com alto QI tem boas chances de ser um bom acadêmico-matemático e pode decidir investir nisso, porém se essa mesma pessoa não tem uma boa habilidade motora e quiser ser um jogador de futebol, provavelmente vai ter que ralar bem mais. Sendo assim, para atingir o sucesso vai ser muito mais fácil se nos dedicarmos a evoluir nosso ponto forte e em relação a outras características torná-las boas suficientes para não nos atrapalhar.

Lógico que como quem nasce alto não precisa necessariamente jogar basquete, com também quem nasce com um alto QI não precisa necessariamente querer se tornar um acadêmico-matemático, mas se deseja atingir um nível de excelência em algo, provavelmente seria mais fácil se aproveitasse seus pontos fortes.

Assim, duas perguntas se fazem necessárias para quem quer atingir um nível de alta performance: (1) Quais meus pontos fortes atualmente me tornam melhor que a maioria das pessoas em algo? e (2) Quais caminhos profissionais posso seguir nos quais essas características representarão um diferencial significativo?

Lógico que ainda se faz pertinente uma discussão na linha de: Eu gosto mesmo desse caminho? É isso que sonho pra mim? Afinal será que se eu não gosto tanto assim disso vou conseguir me disciplinar para treinar 10.000h?

O que levanta mais um questionamento: Será que sou bom nisso pois gosto dessa atividade, ou eu gosto dessa atividade pois sou bom nisso? Bem, isso exige mais pesquisa e tempo, porém ficam as questões para nos ajudar a pensar.

 

Nascer/Estar no lugar certo na hora certa

John Rawls possui uma teoria que diz que para definirmos os direitos que um governo deve dar a toda a sua população seria necessário que todos usássemos um “véu de ignorância”, que tamparia nossa visão e memória tornando impossível saber que lugar ocupamos na sociedade, ou seja, ao final da reunião que definirá os direitos que o governo dará você pode se descobrir como um milionário, um mendigo, um tetraplégico, alguém com alguma doença mental, ou qualquer outra pessoa na face da Terra.

Pelos olhos dessa teoria, e sabendo o quanto as vantagens injustas apontadas por Gladwell em Outliers nos influenciam, fica difícil imaginar que alguém defenda que o governo não deva dar as condições mínimas para que todos possam partir de uma linha semelhante para a corrida da vida, independe de nascerem em família ricas ou pobres. Isso deve passar por uma educação de qualidade acessível a todos e com garantia de que ninguém viva num ponto de extrema miséria, no qual se torne impossível a pessoa sequer pensar em coisas como sucesso e atingir a excelência.

Infelizmente estamos bem longe disso no Brasil, porém acho importante fazer este adendo antes de prosseguir. O que vou discutir aqui e o que discuti antes realmente não faz sentido quando estamos tratando de um grau de miséria elevado. Para garantir que todos tenham a oportunidade de ter sucesso, devemos garantir certos diretos básicos. Dito isso continuemos assumindo que não estamos nesse grau de miséria.

Nos exemplos dado por Gladwell, o lugar onde nascemos e até a década em que nascemos, pode fazer diferença para atingirmos o sucesso. Outro exemplo possível é comparar duas gerações, uma que chegou no mercado de trabalho num boom econômico e outra que chegou em uma crise econômica (te lembra algum cenário?). É de se esperar que tenhamos mais pessoas bem sucedidas na primeira geração, uma vez que vão chegar no mercado de trabalho onde empresas estão crescendo, consequentemente contratando mais e promovendo os funcionários mais rapidamente.

Mas, se sei que estou entrando num mercado em crise por que não tomo uma ação para tirar vantagem disso ou pelo menos não ser afetado por isso? Por exemplo, posso mudar para um país que está passando por uma alta econômica e optar por ingressar nesse outro mercado de trabalho; Posso empreender, uma vez que crises sempre trazem boas oportunidades de criação de novos negócios; Posso tirar vantagem de coisas que só acontecem durante crises econômicas, por exemplo taxas de juros altas, o que me permite acumular capital mais rapidamente (títulos públicos do Brasil estão pagando 7,5% acima da inflação, a maior taxa de juros real do mundo); Etc.

Voltando ao exemplo dos Beatles, se sei que certo bar coloca bandas para tocar 8h por dia e preciso de 10.000h de treino, por que não vou tocar nesse bar? Se acredito que a computação é o futuro, mesmo não tendo um computador no meu bairro ou faculdade, por que não vou atrás de descobrir onde tem um que eu possa usar?

Se eu nasci nos anos 1990 e perdi o grande boom da computação, ótimo, qual será o próximo boom? Sem dificuldades você descobre que vários futuristas apontam que as próximas revoluções são a impressão 3D, a biotecnologia e a robótica/inteligência artificial. Quantos amigos você possui se preparando para isso? Da uma lida nesse texto aqui.

O ponto é que sim, várias coisas podem nos influenciar, inclusive essa crise que estamos vivendo atualmente no Brasil. Porém devo pensar em como posso assumir uma postura pró-ativa para reverter a situação e tirar vantagem, ou pelo menos não ser atrapalhado, pela crise, pelo meu local, década e nascença, etc.

As perguntas aqui, que se juntam as outras duas lá em cima, são: (3) Qual é o cenário atual em que vivo e como isso vai impactar meus planos de sucesso futuro? e (4) Como posso tirar vantagem desse cenário?

 

Concluindo

É inegável, como apontado no livro Outliers, que somos influenciados por características de nascença e até por vantagens injustas estabelecidas pela nossa data e local de nascimento e tudo isso terá impacto em nossa vida profissional. A questão é, se eu tomo consciência desses estudos de sucesso apresentados pelo autor, posso me preparar e pensar em soluções e caminhos a seguir. Tentei lançar algumas perguntas e ideias que espero que sirvam como um norte.

Para se aprofundar nessa área de filosofia de sucesso recomendo a leitura de um dos primeiros textos que escrevi aqui no site sobre a fórmula do sucesso.



A leitura do livro Outliers é altamente recomendada para conhecer outros pontos que influenciam no porque algumas pessoas têm sucesso e outras não, além de conhecer mais vários exemplos sobre o que falei aqui no texto. Conhecimento abre a mente e permite que cheguemos mais preparados para encarar os desafios que vamos encarar na vida profissional. Afinal, nem todo leitor é um líder, mas todo líder é um leitor. Boa leitura!