Quem me conhece sabe que sou um defensor férreo da meritocracia e do protagonismo, como já expliquei no texto Ode à Meritocracia. Nesse mesmo texto, porém, defendo uma ideia chamada de Delta Pessoal. Se você ainda não leu o texto eu re-explico aqui.

Delta é aquele conceito que você viu nas aulas de física: Delta = Final – Inicial

Delta pessoal é a diferença de onde a pessoa chegou e de onde ela saiu. Pense que duas pessoas hoje possuem o mesmo cargo em uma empresa A pessoa 1 nasceu em uma família estruturada, com pais capazes de fornecer uma boa educação e uma mesa farta na hora da alimentação. O outro porém nasceu num sítio, tinha que atravessar um rio todo o dia para ir para a escola e andar 10km, além de às vezes não ter o que comer além de pão.

As duas pessoas estão no mesmo ponto final, porém elas tiveram diferentes pontos iniciais, ou seja, o Delta da pessoa 2 é maior que o da pessoa 1, pois a diferença entre o ponto final e inicial é maior para a pessoa 2.

O problema da nossa sociedade, principalmente no Brasil quando comparado aos países de primeiro mundo, é que esse ponto de partida é muito diferente entre as pessoas. A maioria de nós não consegue sequer se colocar no lugar da população pobre e entender como isso suas vidas.

Na Pedagogia do Oprimido Paulo Freire já falava de como muitas vezes tanto a classe opressora (ricos) quanto a classe oprimida (pobres) são cegos e não percebem, ou admitem, a existência da opressão.

Livro essencial para o pessoal que quer transformar a educação
Gostaria de contar um exemplo que vivenciei pessoalmente e pude sentir na pele. Como sabem estou morando na Austrália, recebo uma bolsa de estudos para estar aqui que dá pra viver legal, mas claro que sempre que aparece oportunidade de fazer uma grana em dólar eu pego.

Há um tempo eu ouvi falar de uma maneira de fazer uma boa grana. Aqui na Austrália o pessoal paga para quem aceita ser cobaia para testar novos medicamentos que estão sendo desenvolvidos. Para se ter ideia a remuneração pelos estudos vão de $1.000 até $4.000 dólares australianos, ou seja, de 2.750 reais até 11.ooo reais!

Como queria fazer grana decidi pegar um estudo apesar do risco. Cheguei a fazer duas visitas iniciais onde eles fazem alguns testes para ver se sua saúde está ok antes de te aceitarem como paciente. Deu tudo certo e fui chamado para participar de um estudo no qual ia ter que ficar uma semana internado.

No dia de ir para o lugar do tratamento fui e cheguei às 14h00, fiquei no local até umas 20h quando começou a bater o cagaço conforme eles iam descrevendo o tanto de coisa que a gente ia ter que fazer. Sei que surtei um pouco e mesmo sabendo que o risco era baixo (afinal a droga já havia passado por vários testes preliminares) desisti do estudo antes de tomar a droga.

Quando saí de lá fiquei pensando: Caramba, apesar de 7.000 reais ser uma boa grana eu de fato não preciso dessa grana e pude desistir do estudo. Mas e o pessoal que chegou aqui na Austrália, não conseguiu emprego e precisa pagar as contas, o aluguel e a comida? Esse cara mesmo no cagaço não pode desistir e tem que se submeter ao estudo clínico mesmo com o risco de ter problemas de saúde futuros.

Aí você estende isso para a realidade brasileira. Quantas meninas não entram na prostituição por que simplesmente precisam de grana urgente para sobreviver, pagar contas, pagar universidade, pagar tratamento médico de um familiar doente?

A realidade é cruel. Dá uma olhada no vídeo abaixo para ter ideia da pobreza que muitas vezes não conseguimos enxergar. Ele mostra algumas estatísticas se o a população mundial fosse de 100 pessoas.

O que quero dizer com esse meu exemplo é que, apesar de acreditar profundamente na meritocracia e no protagonismo pessoal, essas coisas só fazem sentido quando conseguimos garantir o mínimo para todas as pessoas.

Não gostaria de entrar em debates político-ideológicos aqui, já que quando o assunto é esse as pessoas viram animais retardados batendo a cabeça no teclado e param de raciocinar, são movidas por emoções burras e insanas.

Mas uma vez que levantei a bola dessa diferença social gritante e de um mundo opressor, gostaria de deixar três questionamentos para nos ajudar a refletir sobre como podemos chegar em um mundo melhor.

 

Questionamento 1: Para o livre mercado:

Será mesmo que apenas o livre mercado é capaz de construir um mundo rico onde todos podem ter o suficiente para viver?

Não digo um mundo onde todos são iguais e vão ganhar a mesma coisa em termos financeiros, isso é utopia. Digo que todos terão o mínimo para sobreviver e para crescer na vida se assim desejarem. Todos vão poder ter acesso a uma educação de qualidade, independente da classe social, e com a certeza de que terão comida no prato quando chegarem da escola.

Muitas vezes os defensores da economia de livre mercado defendem a teoria de que se uma empresa resolve pagar 60 centavos por dia de trabalho de uma criança na África e tem gente que aceita o trabalho isso é justo, já que se aceitam o trabalho é por que é o melhor trabalho disponível. Apesar de ter lógica o discurso eu pergunto: Será realmente que é esse o mundo que queremos construir?

É muito fácil defender as coisas quando estamos em uma situação confortável, fazendo parte da classe média-alta do mundo.

O que é um mundo justo?

John Rawls tem um conceito de justiça que todos deveriam conhecer (olha aqui um exemplo de coisa que poderia substituir o conteúdo inútil que vemos na escola). De modo simples Rawls defende que para construirmos regras justas para uma sociedade toda a população deveria se cobrir por um véu de ignorância. Imagine o seguinte cenário:

Todas as pessoas do mundo são chamadas para uma reunião onde serão debatidas as regras universais para o mundo. Porém, ao chegarem nesse local todos simplesmente se esquecem por completo de quem eram e do local que ocupavam na sociedade, ou seja, você pode ser rico ou pobre, africano ou europeu, cristão, budista ou ateu, heterossexual ou homossexual, homem ou mulher, idoso ou criança.

A partir desse cenário (e lembre-se das estatísticas apresentadas no vídeo sobre o mundo com as 100 pessoas) as pessoas nessa reunião vão decidir as regras universais. Nesse cenário pense o que você acharia justo. Será que é justo eu pagar 60 centavos por dia para uma criança africana de 12 anos colher cacau enquanto alguém de classe média-alta vai comprar um chocolate delicioso e saboreá-lo na sua casa nos alpes suíços? Lembre-se que quando acabar você pode estar na pele de qualquer um dos dois! Será que nesse cenário concordaríamos em influenciar no livre mercado e estabelecer salário mínimo e proteção para nossas crianças?

Outro exemplo possível é: será que devemos criar uma lei para punir de alguma forma os homossexuais, ou qualquer outra minoria? Lembre-se que você pode fazer parte da maioria que prefere viver no conforto ao lado de seus iguais ou da minoria a ser reprimida.

Se você gostou desse conceito de justiça e quer conhecer outras teorias compre este livro que, por enquanto, está com o título do melhor livro que li esse ano!
 Poderia citar mais exemplos, mas creio que já entenderam o conceito.

Voltando a pergunta inicial: Será mesmo que apenas  livre mercado é capaz de construir um mundo rico onde todos podem ter o suficiente para viver?

 

Questionamento 2:  Para o populismo

Será que realmente um mundo com com todos recebendo a mesma coisa funciona? Será que o socialismo funciona? Será que as políticas populistas melhoram alguma coisa a longo prazo?

O capitalismo e o livre mercado têm lá seus problemas como discuti aí em cima, mas será que um governo populista é a solução? Será que a chave é um Estado que se intromete incessantemente na vida das pessoas e cobra verdadeiros absurdos de impostos?

Você sabia que existe um estudo de um matemático que mostra que depois de um ponto se o governo aumentar os impostos ele vai arrecadas MENOS do que se cobrasse menos impostos? Sim, é isso mesmo. Pois depois de um ponto se o governo cobra muitos impostos as pessoas não se sentirão estimuladas a gerar renda, pois quase tudo o que produzem vai para o bolso do governo.

 

A Curva de Laffer e um pouco de psicologia e estudos sobre motivação explicam por que o socialismo, apesar de bonito no papel, nunca irá dar certo. As teorias motivacionais, de formas simplistas, podem ser resumidas na seguinte metáfora, um tanto quanto chula, mas bem ilustrativa:

Existem duas formas de motivar um cavalo, ambas envolvendo uma cenoura. Ou a cenoura vai atrás ou vai na frente.

Espero que tenham entendido…

Enfim, as pessoas são movidas por coisas que ou lhe causam medo ou lhe causam prazer. O ser humano busca um emprego ou por que tem medo de morrer de fome ou por que quer ficar rico e ter algum trabalho gratificante.

Se eu tiro completamente os estímulos das pessoas elas simplesmente vão produzir menos do que poderiam, fazendo o mundo na média ficar mais pobre, logo ficaremos todos iguais… Na pobreza.

Provavelmente uma das coisas que mais contribuem para que os EUA sejam um país rico é o tal do “American Dream”! Isso funciona e faz o cara pobre acreditar que pode virar rico e correr atrás disso, nesse caminho gera riqueza para a sociedade, seja empreendendo e gerando empregos, ou gerando receita e pagando mais impostos.

Assim como provavelmente uma das coisas que contribui para o Brasil ser um país pobre é o tal do “Brazilian Dream”, ou seja, passar em um concurso público, não poder ser demitido, poder ficar coçando o saco, não gerar retorno para a sociedade mas com grana caindo na conta sem preocupações. Mesmo que isso nos custe nossa vida que será desperdiçada fazendo algo que não gostamos, ou que matamos nossas chances de uma progressão significativa na carreira, ficando estacionados no mesmo cargo e com o mesmo salário até nos aposentar.

Outro questionamento justo, além dos impostos abusivos e o lado motivacional, é envolta da máxima: Não existe almoço grátis!

Se o governo opta por dar algo de graça para alguém, outro grupo vai ter que pagar, uma verdade simples mas que muita gente da esquerda quer fechar os olhos e ignorar. O governo grátis é um Mito!

Depois de recomendar os livros a “Pedagogia do Oprimido” e “Justiça” para o pessoal do livre mercado sem pudor, recomendo “O Mito do Governo Grátis” para o pessoal do populismo desenfreado. Sejamos intelectuais de verdade e enchamos o pote do conhecimento de todas as fontes possíveis. Uma mente que só entra em contato com ideias que já conhece, nunca se expande.
.Esses dias saiu uma notícia que estudantes de baixa renda vão poder pegar ônibus interestadual de graça. Mas vamos pensar, se eu forço a empresa a dar essa gratuidade para estudantes de baixa renda, alguém vai ter que pagar por ela, ou seja, outros passageiros. Só que o governo parece esquecer que além dos estudantes temos outras pessoas de baixa renda que precisam pegar ônibus que vão ter que arcar com os ônus de uma decisão emocional e provavelmente sem estudo racional e matemático algum. Esse é um dos incontáveis exemplos que temos na sociedade brasileira de coisas “de graça” que saem caras.

E vale lembrar que não, o governo não pode simplesmente imprimir dinheiro. E que também dar calote na dívida provavelmente não é uma boa ideia, afinal se alguém de emprestou dinheiro quando você precisava e você não paga o que acontece no futuro? Pense um pouco. Não vou me aprofundar, mas vale uma pesquisada.

 

Questionamento 3: Para os extremistas

Será que o extremismo e um único modo de pensar é a melhor solução?

Tenho certeza que vou levar porrada dos dois lados, do pessoal que defende o populismo e do pessoal que defende o livre mercado. Nenhum dos dois aceita que seus modelos são falhos quando levados ao extremo, na real os dois só vão fuder ainda mais o mundo.

As pessoas quando vêm que alguém tende para o outro lado viram animais descontrolados que rosnam sem nem conseguir terminar de ler um texto. Vivemos cercados por animais.

Será que a solução para um mundo rico e com um mercado forte, mas que ao mesmo tempo entregue dignidade para as pessoas e permita que todos partam de um ponto parecido da corrida da vida não se encontra no meio do caminho?

 

Concluindo

Acredito que quando alguém realmente acredita em algo, por mais que nos parece até ridículo à primeira vista, merece uma análise mais cuidadosa, capaz de nos fazer enxergar o mundo como a outra pessoa o vê e construir empatia. Isso deveria ser mais válido ainda quando uma grande massa defende algo que não entendemos.

Realmente, antes de me colocar na situação de ter que praticamente “vender meu corpo” por dinheiro confesso que, apesar de pensar sobre isso, nunca havia sentido na pele. Há uma diferença gritante entre de fato conseguir se sentir na pele do outro, do oprimido, e apenas pensar como deve ser.

Prova disso é a dificuldade que muita gente tem de entender o filme Que Horas Ela Volta e como a opressão acontece.

O filme Que Horas Ela Volta está diponível em alta qualidade e gratuitamente no Youtube, chega lá e assiste ele depois de ler esse texto.

Espero que possamos cada vez mais lutar juntos por um mundo digno e cheio de oportunidades para todos.

Gostaria ainda de compartilhar um pensamento que nunca havia feito, mas que quando entrei em contato mudou toda a minha perspectiva: Educação de qualidade sem mercado forte e mercado forte sem educação de qualidade não levam país algum para a riqueza e igualdade. Em todas as nações que alcançaram o patamar de desenvolvidas a educação de qualidade só veio depois (ou junta) de um mercado forte.

Um grande abraço de alguém que sonha com um mundo melhor!