“Se você dormisse em uma sala de aula há 400 anos e acordasse hoje, você saberia exatamente onde está. Se você dormisse em um hospital ou em qualquer outro lugar isso não aconteceria”. 

[Daphne Koller]

 

A frase acima nos escancara algo que nós sabemos e que os profissionais de educação também sabem: O mundo mudou e a educação também precisa mudar.

Vivemos em um mundo muito diferente daquele experimentado no século XVII, século no qual as escolas ‘modernas’ foram inventadas na Prússia. Porém, continuamos a transmitir o mesmo tipo de conteúdo e da mesma forma de sempre com poucas mudanças.

Gostaria de falar sobre algumas coisas que acho que precisam mudar no setor educacional para entregarmos uma educação focada no aluno e com o objetivo de nos ajudar a construir uma sociedade melhor.

Lógico que o debate é profundo e engloba diversas áreas além das que eu falo aqui, contudo acredito ser interessante compartilhar algumas das ideias que venho reunindo ao longo dos anos.

 

O que deveríamos aprender?

O que uma escola contextualizada com o mundo real e preocupado em nos preparar para a vida deveria ensinar?

Provavelmente a resposta não passa por números complexos, física quântica e uma dezena de nomes de tipos de rochas. Mas então o que ensinar/aprender?

Embora algumas coisas que aprendemos hoje na escola sejam de fato muito importantes e devam estra lá, a grande maioria dos conteúdos que vemos principalmente no final do ensino fundamental e no ensino médio dificilmente será utilizado para alguma coisa em nossas vidas. Lógico, se você for para área de exatas você vai usar o que aprendeu de matemática, assim como se for para geografia vai precisar saber os tipos de rochas e assim por diante. Mas será que todos os alunos deveriam ver esses conteúdos?

Me questiono sobre isso já faz bastante tempo, o que resultou em um documento que tenho no meu computador e que estou sempre atualizando com assuntos que creio que devam ser ensinados na escola. Alguns dos temas são:

  • Política e sistemas políticos: Como funciona o nosso sistema político atual? O que faz um deputado, um senador, um governador, etc? Quais são outros sistemas políticos possíveis?
  • Criação de riqueza: Finanças pessoais, empreendedorismo e gestão
  • Contextos e interpretação: Aprender a reconhecer contextos da nossa vida, desde emoções até propagandas e textos que tentam nos influenciar
  • Comunicação e empatia: Técnicas de comunicação, principalmente focadas em construir empatia e diálogo; Resolução de problemas e situações complexas
  • Aprendizagem: Aprendendo a aprender; Como absorver mais conteúdo; Como ler mais
  • Autoconhecimento: Ferramentas que nos ajudem a olhar para dentro e nos conhecer mais
  • Como escolher um trabalho: O que levar em consideração quando formos decidir por uma carreira para não acabarmos como 70% das pessoas que são infelizes no trabalho?
  • Como pesquisar e aprender o que você precisa: Hoje em dia a maioria das coisas que precisaremos aprender, vamos aprender só depois que sair da escola, e muitas delas ainda nem existem. Como eu pesquiso e aprendo essas coisas?
  • A real situação do mundo: Apresentar o jovem a real situação em que a maioria das pessoas do mundo vive; Pobreza e riqueza; Capitalismo
  • Conceitos de Justiça: Apresentar conceitos de justiça como o véu da ignorância de Rawls, “loteria do ovário” e outros
  • Habilidades necessárias a vida: autoconfiança, disciplina, habilidades sociais, etc
  • Como construir relacionamentos felizes e duradouros

Isso para listar alguns dos tópicos que eu gostaria de ter aprendido enquanto era mais novo.

Creio que se todas as crianças brasileiras tivessem acesso a alguns dos conteúdos citados aí em cima daríamos passos significativos em direção a construção de uma sociedade mais justa.

Imagine se todos entendessem de finanças pessoais somando isso a um conhecimento de como a nossa sociedade consumista tenta confundir necessidade e desejo. Imagine se soubéssemos conversar e dialogar sobre questões complexas (leia-se política) usando uma comunicação não violenta e empática. Imagine se fosse nos ensinado habilidades sociais que tanto nos exigem no mercado de trabalho. Imagine se aprendêssemos como encontrar um trabalho que gostamos e onde vamos passar 1/3 de nossos dias na idade adulta.

Apesar de um ou outro ponto poder gerar alguma pequena polêmica acredito que ninguém discorda da maioria das coisas aí apresentadas. Principalmente quando pensamos emtermos de utilidade para  agrande maioria dos seres humanos e comparamos com o que aprendemos sobre quarks, sobre os filos e subfilos das espécies, ácidos e bases de arrehenius e por aí vai.

 

Modelo de ensino

É lógico que não adianta abordar todos esses temas e continuar com a aula tradicional de 50min, professor na frente, alunos sentados na cedeira, quietinhos e anotando o conteúdo. É lógico que ensinar muitas coisas aqui apresentadas necessita de uma nova metodologia didática.

Pense por exemplo em habilidades sociais, não consigo aprender isso com aulas expositivas, é necessário a interação entre os alunos. Isso é um dos motivos de porque na faculdade vários alunos vão atrás de atividades extracurriculares.

Outro exemplo é falar de pobreza. Explicando que temos milhões de pessoas vivendo com menos de 2 dólares por dia pode até dar uma impressionada, mas dificilmente fará o aluno construir empatia com a situação e de fato perceber a urgência de mudarmos isso. Será que aqui não caberia levar os alunos para fazer atividades filantrópicas?

Outros desses temas por mais que tenhamos a metodologia perfeita, dificilmente vão despertar o interesse de uma criança ou adolescente por si só. Isso nos leva a um conceito importantíssimo em um ensino desenhado para o aluno e não para a escola poder lucrar mais com um modelo fabril e de fácil execução.

 

Temas Geradores

Paulo Freire aborda em seu livro Pedagogia do Oprimido os temas geradores. Fugindo de palavras difíceis, temas geradores nada mais são do que os alunos, em um diálogo aberto com os professores, decidirem o que querem aprender.

Talvez um aluno não tenha tanto interesse em falar sobre resolução de conflitos por que o professor sugeriu. Agora imagine se o mesmo aluno não teria muito mais interesse se estivesse negociando com o pai poder participar de uma excursão com os amigos, ou um aumento de mesada, ou se estivesse vivenciando as dificuldades encontradas em um trabalho em grupo. Creio que o interesse seria muito maior.

Lógico que a “Resolução de conflitos” deveria ser adaptada à essa realidade do aluno, para que ele veja aplicabilidade naquilo e não uma teoria qualquer vazia como vemos em nossas aulas no colégio e na universidade.

O problema é que crianças são forçadas a aprender coisas que adultos acham importantes, em séries que adultos acham apropriadas e na forma e profundidade que adultos acham adequada.

Pedagogia do Oprimido, livro de um brasileiro reconhecido internacionalmente pelo seu trabalho na educação
 

Os Temas Geradores são uma pedra fundamental para a educação do futuro preocupada em despertar o prazer da aprendizagem na criança.

 

Autonomia do educando

Quando falamos em conciliar esses conteúdos propostos com alguns dos conteúdos que já são ensinados e com uma abordagem baseada de temas geradores é necessário falar de autonomia do aluno.

Com isso quero dizer que, apesar de ser necessário o aluno ter alguns conteúdos obrigatórios, uma boa parte de seus estudos deve poder ser escolhida pelo mesmo de forma autônoma. Um exemplo é que se tenho interesse em matemática vou me aprofundar nesse campo em detrimento de geografia; Ou se estou na fase de começar a estagiar quero fazer mais matérias relacionadas com encontrar um trabalho que me realize.

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Estas são algumas das ideias que penso poderem contribuir com uma educação melhor e, consequentemente, com uma sociedade melhor.

Embora algumas iniciativas inovadoras venham surgindo ainda são poucas e algumas pecam na execução das novas ideias. Não devemos nos desanimar e sim começar a executar mais e trocar experiências.

Abaixo coloco o documentário “Quando sinto que já sei” que visitou algumas escolas que vêm buscando implementar novos modelos de ensino-aprendizagem para conduzir entrevistas com alunos e educadores.

Documentário ‘Quanto sinto que já sei’