“Quem não tem passado se conforma com o futuro” – Como a avó do Raul já dizia

Esses dias no grupo do facebook da minha universidade, a UFABC, começou uma discussão sobre a falta  de valorização do cientista no Brasil. O argumento que iniciou a discussão era que a ciência é elitista, uma vez que uma bolsa de iniciação científica, que é tida como o início da carreira acadêmica, é de apenas R$400 e o aluno não pode trabalhar nem estagiar caso receba a bolsa.

Questionamento válido, principalmente quando vivemos em um país de terceiro mundo onde os preços de bens e serviços são mais caros que no mundo desenvolvido e com R$400 é realmente difícil ter uma vida digna. O problema começa quando as respostas ao post viram no sentido lamentista onde começamos a apenas reclamar da universidade que deixa o preço do RU/bandeijão aumentar e do governo que não sobe o valor da bolsa de iniciação científica.

Li diversos comentários e poucos traziam ideias de soluções viáveis na qual o aluno pudesse resolver o problema por ele sem depender do governo ou da universidade. É muito mais fácil quando simplesmente viramos e falamos “o governo não ajuda” ou “a faculdade aumentou o preço do RU” ou ainda “é obrigação do governo fazer algo”. No jargão da psicologia podemos dividir o grupo de pessoas que responderam em dois: Pessoas com o Lócus Interno de Controle X Pessoas com Lócus Externo de Controle

Lócus de Controle: É a forma como a pessoa encara o mundo e assume, ou não, responsabilidade por sua vida. Uma pessoa com lócus de controle interno tende a ser protagonista da sua vida, assumindo a responsabilidade pelo que lhe acontece, enquanto uma pessoa com lócus externo sempre acha um jeito de terceirizar responsabilidades.

Exemplo: Duas pessoas chegam atrasadas em um compromisso uma diz “desculpe o atraso, o trânsito estava terrível” enquanto a outra fala “desculpe o atraso, deveria ter saído mais cedo de casa, não me programei e acabei pegando trânsito“. A primeira possui um lócus de controle externo total. A culpa é do trânsito, nunca dela, quem mandou todos esses carros decidirem sair no mesmo horário que eu???? A segunda pessoa tem o lócus interno de controle e sabe que a única responsável por ela chegar atrasada é ela mesma, que mesmo sabendo da possibilidade de trânsito decidiu sair no mesmo horário.  Não preciso nem falar que pessoas com Lócus Externo são a maioria, né? 

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Alguns anos atrás a Fundação Estudar, uma instituição fundado pelo maior trio de empresários brasileiros, Jorge Paulo Lemann e cia, fez um estudo analisando diversos de seus fundadores e bolsistas tentando traçar valores em comuns, nesse grupo incluímos várias pessoas de muito destaque em diversos setores e áreas de atuação. Chegou-se a um grupo de 6 valores comuns, entre eles algo que foi chamado de Meritocracia.

Meritocracia: Conquistar e cumprir seus objetivos através do esforço próprio; liderar pelo exemplo pessoal; acreditar que é o protagonista de sue próprio destino; recompensar quem deve ser recompensado e adquirir recompensas através do merecimento.

Não preciso nem comentar que quando falávamos dessa valor nos nossos cursos de desenvolvimento algumas pessoas já começavam uma discussão voraz, como se houvêssemos dito a maior das heresias do mundo, um verdadeiro pecado. O problema é que essas pessoas confundiam a palavra “Meritocracia” com PSDB, PMDB, liberalismo, direita, ou qualquer outra coisa que lembre nosso lado azul da política. Não, aqui meritocracia não tem nada a ver com orientação política. Meritocracia tem a ver com um modo de encarar o mundo, meritocracia vista como um valor individual, não discussão de sistemas políticos. Estamos falando que cada um deve atingir seus objetivos com base no seu esforço próprio. Estamos falando de alguém que possui Lócus Interno de Controle.

As pessoas continuavam a não entender, até que decidimos trocar a palavra Meritocracia por Protagonismo. Sim, leia a definição que coloquei ali em cima, quando falamos em Meritocracia nada mais é do que falarmos de Protagonismo, em você ser protagonista da sua vida, assumir as rédeas da sua vida e saber que você é o único responsável por tudo de bom e de mal que acontece com você. Seu ambiente externo com certeza influencia na sua vida, mas em última instância o único que pode ser responsável por sua vida é você mesmo. Se preferir use um trecho do poema de William Ernest Henley como definição de meritocracia:

“Eu sou o mestre do meu destino, eu sou o capitão da minha alma”.

A partir do momento em que assumimos que somos os responsáveis por nossas vidas, e não o governo, as coisas começam a mudar. Voltando ao exemplo da bolsa de iniciação científica que não permite ao aluno de baixa renda seguir carreira científica. Gostaria de dar algumas soluções com lócus interno de controle e foco na meritocracia:

  1. Sim, existem várias pessoas que vivem com menos de R$400. Não é fácil, não é confortável, mas é possível. 
  2. CNPq disse que você não pode ter carteira assinada caso ganhe bolsa, mas acho difícil tirarem sua bolsa se você começar a fazer bombom ou qualquer outra coisa para vender na faculdade. Aqui incluo serviços como aulas particulares (amigo, ta aí algo que paga mais que qualquer estágio, quando dava aula particular cobrava R$50 por hora, faça as contas)
  3. Se sua pesquisa exige um grau de dedicação extremo que te impossibilita de trabalhar você sabia que existem dezenas de ONGs e Fundações que dão bolsas de estudo para te ajudar? Possivelmente até empresários dispostos a te ajudar? Sabia que a própria Fundação Estudar começou com o atual CEO da AmBev batendo na porta do Jorge Paulo Lemann e pedindo que ele pagasse seu MBA?

Todas essas soluções são bem mais difíceis que ter o governo ou seu pai te bancando? Sim! São impossíveis? Não! Essas soluções exigem esforço, dedicação e dependendo de qual escolher pode até ser que demore mais para se formar. Infelizmente não vivemos em uma sociedade igualitária, infelizmente as pessoas começam a corrida rumo ao sucesso profissional de lugares muito diferentes. Reclamar e esperar o governo fazer algo não vai te ajudar em nada, ainda mais quando você reclama no facebook ao invés de reclamar nos lugares corretos – por exemplo, os mesmos alunos da minha universidade que reclamam que o preço do RU/bandejão é abusivo no facebook esquecem só de aparecer nas sessões do conselho universitário que é o órgão da universidade que pode alterar o preço, o mesmo acontece com quem reclama do governo no facebook e não nas instâncias que podem mudar algo.

É importante ressaltar também que Meritocracia não é só fazer um esforço burro. Fazer a mesma coisa que você sempre fez ou que outros fizeram e esperar resultados muito diferentes é burrice. Meritocracia é aplicar esforço consciente em coisas que vão fazer a diferença e vão te ajudar a chegar onde você quer. A meritocracia te ajuda a chegar mais longe e atingir seus objetivos, mas para isso é necessário conhecimento aplicado. Se você quer abaixar o preço do RU mas só reclama no facebook, provavelmente não terá resultados, assim como que quer ser milionário, mas decide trabalhar como pedreiro a vida toda, dificilmente irá atingir esse objetivo. É necessário buscar soluções, por mais difíceis que sejam, para atingir bons resultados.

Um último conceito que vale a pena trazer a tona é o conceito de Delta. Sim o mesmo delta das aulas de física que você usa para fazer “final – inicial”. Explico: Se temos duas pessoas que hoje ocupam o mesmo cargo de diretoria em uma empresa, só que uma veio de família rica, estudou em escola boa a vida toda e teve todos os seus cursos pagos pelos pais. O outro veio de família pobre, morava no sítio, andava kilometros todos os dias e atravessava um rio a nado para ir até a escolinha na sua cidade de 15mil habitantes. Ambos estão no mesmo ponto final, mas saíram de diferentes pontos iniciais, como o ponto inicial da segunda pessoa é mais distante do final seu Delta é maior.

Isso faz com essa pessoa tenha mais mérito (no sentido de meritocracia) de estar onde está do que seu colega. Ele teve que dar um salto muito maior e provavelmente se esforçar muito mais para chegar onde chegou. Adivinha qual dos dois eu preferiria ter trabalhando do meu lado? Sim, um deles se provou muito mais capaz que outro. 

Para não cairmos no simplismo, quando falamos de meritocracia individual devemos obrigatoriamente falar do delta da pessoa. Quando você se distanciar apenas do ponto final e olhar toda a trajetória vai ver que as vezes um aluno de uma federal brasileira pode ter muito mais potencial que um de Harvard. Quem consegue perceber isso vai conseguir selecionar melhores pessoas pra junto de si, pois a tendência é que a pessoa com o maior delta tenha mais potencial o que, se bem direcionado, pode levá-la a passar quem saiu na sua frente na corrida da vida.

Quando espalhamos que a meritocracia é o mal da humanidade e não entendemos o que ela quer dizer, estamos ajudando a afundar várias pessoas na lama da mediocridade. Pessoas que vão se acostumar a esperar tudo do governo ou de terceiros e quando o esperado não chegar irão apontar o dedo para os outros e começar a culpa-los por sua vida estar na situação deplorável em que chegou. Meritocracia nada mais é do que protagonismo e lócus interno de controle, características essenciais para conquistar o que se deseja.

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Sua vida está mais difícil agora que a do seus colegas? Você atravessava o rio nadando para ir até a escola? Só comeu miojo durante um ano pois não tinha grana pra comer outra coisa? Reclamar do governo não vai te ajudar em nada e também não vai ajudar pessoas nessa situação. Foque em desenvolver lócus interno de controle e buscar soluções viáveis para colocar em prática e mudar essa quadro. Quanto antes começar, maiores suas chances. Se o presente está uma bosta, ótimo, não adianta reclamar. Sonhe, trace um objetivo, coloque isso na sua mente e corra atrás!  

Se o Raul me permite corrigir sua avó:

“Quem não tem passado se prepara para o futuro”.

Abraço!

Agradecimentos especiais por algumas reflexões à Rafaella =)