Nesse texto vou explicar a Teoria da Pessoa Subvalorizada, e em cima dela, explicar porque estagiários ganham mal no Brasil e como conseguir um melhor salário inicial (e para as empresas como atrair mais talentos).

Warren Buffett, o maior investidor do mundo, quando perguntado sobre o segredo de seus investimentos respondeu que seu segredo é simplesmente comprar barato e vender caro.

Para compreender como isso se dá precisamos entender que todo o Ativo ou Bem (seja uma ação, casa, etc.) possui um Preço e um Valor.

O Preço é a quantia pelo qual o bem está a venda. É a quantia em dinheiro que você precisa desembolsar para adquirí-lo. O Valor, por outro lado, é o quanto esse bem ou ativo deveria de fato valer.

Um mesmo bem pode ter Preço diferente do Valor. Contudo, com o passar do tempo, o valor verdadeiro tende a ser refletido no preço e esse vai se estabilizar, a menos que algo ocorra e crie uma nova distorção.

Pessoas também possuem Preço e Valor. Imagine um jogador de futebol que pode ser comprado ou vendido, ou melhor, imagine você que vende seu tempo por um salário. Sua hora de trabalho provavelmente tem um preço e um valor que podem ser diferentes.

O preço de um estagiário para o mercado, por exemplo, gira em torno de $1.000 e $2.000, que é o que esse jovem de fato recebe. Contudo, seu valor pode ser muito diferente, sendo o que o trabalhador consegue entregar de resultado para a empresa. Se ele traz muito mais lucro para a empresa ele está subvalorizado, se ele traz pouco lucro ele pode estar súpervalorizado.

 

Skull and Bones & Programas Trainee

Dentro da Yale University, uma das mais prestigiadas universidades norte-americanas, existe uma sociedade “secreta” chamada Skull and Bones, da qual já participaram pessoas bastante poderosas, como por exemplo George Bush.

Para participar da sociedade são recrutados estudantes de graduação somente em seus últimos anos de estudo, pois é quando a sociedade consegue ter mais certeza de quem terá sucesso na vida profissional. Em outras palavras, eles recrutam as pessoas pelo seu Valor, que deve ser refletido em um “preço futuro”.

Os programas Trainee fazem o mesmo, o pré-suposto por trás de pagar $5.000 ou $6.000 para um recém formado, ao invés dos correntes $2.000 ou $3.000, é que a empresa está apostando que o valor desse jovem é muito maior do que o preço que as outras empresas estão oferecendo.

E comprando barato (mesmo 5mil ainda pode ser barato) a empresa vai atingir o sucesso seguindo a fórmula do Buffeet.

Na AmBev, por exemplo, mais da metade de todos os diretores da companhia veem do programa Trainee. De uma empresa que recruta milhares de pessoas todos os anos, mais da metade dos diretores vem de 20 contratados/ano. Você ainda acha que é um mal negócio atrair esse futuro diretor pagando apenas 5mil para um cara que no futuro custaria milhões para trazer pra dentro da empresa?

Sim, a AmBev entendeu a diferença de valor e preço, e se propõe a pagar uma quantia muito mais próximo do real valor do trainee contratado do que outras empresas. Não é a toa que a AmBev está onde está e com um o programa trainee mais concorrido do mercado brasileiro.

 

A Teoria da Pessoa Subvalorizada

Quando era o product owner do LabX, programa de formação de lideranças da Fundação Estudar, lembro que tive um grande insight conversando com uma das mentoras do programa.

Estávamos falando sobre uma outra mentora, considerada por mim uma das melhores pessoas que já haviam passado pelo LabX, seja em termos de performance ou dedicação, era alguém pra quem eu tirava o chapéu e adoraria te-la trabalhando ao meu lado. Porém, apesar de ser muito boa, ela estava com dificuldades de conseguir emprego, sendo inclusive rejeitada para trabalhar na própria Fundação Estudar, por não preencher alguns critérios para uma determinada vaga aberta.

E. nessa nossa conversa, eu falava indignado como meus gestores não haviam contratado ela. Nesse momento a mulher com quem conversava disse: “Pois é, não sei como não contrataram, mesmo ela sendo alguém muito barata. Ela é recém formada e provavelmente estaria disposta a ir trabalhar por um salário de $2.500”

Fiquei com isso na cabeça. Alguém “muito barata”…

A gente tinha na nossa frente alguém que ia performar muito bem e por um valor muito pequeno. E mesmo assim deixamos passar. Por mais que ela não fosse perfeita para a vaga aberta, ela era um ativo subvalorizado.

Lembra da regra de ouro de Warren Buffett? Compre barato e venda caro! Nesse caso poderia ser contrate barato e tenha muito retorno pagando muito menos do que a pessoa irá te gerar de lucro.

Nesse momento surgiu em minha mente a Teoria da Pessoa Subvalorizada, que basicamente é alguém que, por algum motivo, está com um preço de hora/trabalho no mercado muito menor do que o seu valor real.

 

Programas de Estágescravo

A época de vida na qual é mais fácil achar pessoas subvalorizadas para contratar é enquanto ainda são estudantes. Quanto mais cedo, menor a noção do jovem tem sobre seu real valor.

Quando eu era o gestor do LabX entrei em contato com centenas de jovens e vou te dizer que, via gente muito boa trabalhando quase de graça. Via pessoas que eram fenomenais com arte digital ou com edição de vídeo vendendo esses serviços por uma mixaria, o mesmo para programadores excelentes e para jovens com perfil de gestão ou vendas.

Vou mandar a real pra ti: se você está nos 5% que performam muito, aceitar ser estagiário no Brasil é quase aceitar um trabalho escravo. Você é uma pessoa muito subvalorizada.

Quando falo de top 5%, para você ter uma ideia, estou falando de um perfil mais ou menos assim (há excessões a regra, mas generalizo aqui para facilitar): estuda em universidade de ponta, fez pelo menos um intercâmbio, participou de atividades extracurriculares como Empresa Júnior e AIESEC ou outras, já estagiou antes onde performou muito e entregou excelentes resultados.

Conheço muito aluno de graduação e estagiário por aí que performa muito mais que muito analista pleno e sênior, porém as empresas não contratam essas pessoas pelo seu Valor e pelo que são capazes de entregar de resultado. As empresas insistem em pagar o Preço corrente, que é estabelecido pelo mercado naquela faixa entre 1 mil e 2 mil.

Na real, se tu for trabalhar como diarista que tu tira o dobro disso.

 

O que fazer – Para os Jovens

Infelizmente a maioria das empresas vão insistir em te pagar pelo preço de um estagiário normal, foda-se que você está no top 5% dos alunos de graduação.

As companhias não conseguem reconhecer um ativo sub-precificado, ou fingem que não conseguem.

A grande maioria das empresas só vai te contratar como analista se você já for formado e, ainda assim, como analista júnior. Para ser contratado como analista pleno, só depois de ter subido a escadinha do analista júnior e assim vai.

Bom, as alternativas que consigo ver diante desse cenário são:

  • Aceita ser um estagiescravo, esperando ganhar mais no futuro: Contudo, tenha certeza que seu aprendizado e/ou crescimento rápido futuro vai compensar esse período onde você está recebendo menos do que vale.
  • Se candidatar para vagas de analista: É sempre uma solução tentar se candidatar para vagas de analista também, porém tenha certeza que dará conta da carga-horária maior.
  • Usar um acelerador de carreira: Para fugir da escadinha de estagiário>analista júnior>analista pleno… existem alguns aceleradores de carreira, o mais conhecido é o programa Trainee de uma boa empresa. Como eu disse esses programas tentam corrigir essa distorção entre preço X valor e pagar um valor mais justo para a pessoa que performar muito (mas tenha em mente que para conseguir entrar em um você precisa estar nos top 1% e não “só” nos top 5%).
  • Negociar: Outra solução é, caso aceito em algum programa de estágio, ou até de analista, negociar e tentar mostrar para empresa o porque você acha que vale mais do que o que estão te oferecendo.
  • Empreender: Se tu é bom mesmo e tem vontade de empreender está aí uma possível solução para faturar de fato o quando você consegue gerar de receita e receber seu real valor como pagamento. Se está em dúvida entre largar tudo e empreender ou ter um emprego leia esse texto.

 

O que fazer – Para os Contratantes

Primeiramente, se ver uma pessoa subvalorizada, contrate! Mesmo que não precisa preencher uma vaga naquele momento. Não perca a chance de “comprar um ativo muito barato”. Provavelmente sua valorização no longo prazo irá compensar um gasto inicial.

Mas lembre que se você quiser de fato atrair e reter os melhores, pague de acordo com o que os melhores merecem. A lógica é bem simples, sei que você consegue entender 😉

Ah, mas por que pagar mais se eu consigo atrair um jovem bom pagando um salário de $1.500? Se a sua mentalidade é esta te recomendo ler o livro Dar e Receber.  De acordo com a pesquisa apresentada nesse livro quem é um tomador,  ou seja, quem quer sempre “se dar bem” em cima dos outros tende a ter um menor faturamento do que doadores, aqueles que se doam de maneira inteligente.

Sua empresa é tomadora, e só pensa nela mesma, ou é doadora? Com qual você acha que um jovem profissional terá mais fidelidade? Acredito que não com aquela que só quer explorá-lo pagando o menor valor possível.

Lembre-se, uma hora a distorção de valor e preço tende  se corrigir e, se não for corrigida por você, será por uma proposta de outra empresa que esse jovem de ponta irá receber, fazendo com que te abandone, logo que perceba o seu espírito de tomador.
– Gabriel Vinholi


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