Como ser feliz e ter qualidade de vida? Com um trabalho com propósito e pelo qual somos apaixonados ou aproveitando cada pequeno momento do nosso dia?

Desde que comecei a estudar na UFABC, por algum motivo que desconheço, comecei a me dedicar a várias atividades diferentes: Fundei uma liga de empreendedorismo, fiz uma iniciação científica sobre startups, fui vice presidente da empresa júnior, ajudei na fundação do centro acadêmico da universidade, fui embaixador Choice, co-organizei um TEDx. Às vezes quando paro pra pensar no tanto de atividades que já fiz, eu simplesmente não consigo me lembrar de todas, por exemplo, já estava esquecendo que fui representante discente no ConsUni, fiz trabalho voluntário e participei de uma competição de plano de negócios.

De modo geral, alcancei bons resultados na maioria dessas atividades, chegando ao ponto de várias pessoas virem perguntar minha experiência e eu acabar virando um ponto de benchmarking para muitos.

O tempo passou e comecei a trabalhar na Fundação Estudar, entrei para ajudar no LabX, um programa de formação de lideranças, mas acabei me tornando o product owner do programa, ainda como estagiário. E comecei a trabalhar 8, 10, 12h por dia, apesar da faculdade.

Fiz muita coisa, era uma rotina que provavelmente muitas pessoas se sentiriam exaustas de ter, mas sabe de uma coisa? Eu adorava!

Eu gostava tanto de todas essas atividades que realizei, que não tinha um final de semana que não abrisse meu e-mail, e na grande maioria das vezes não era por obrigação, era porque eu queria colocar mais de mim naquilo. Era simplesmente apaixonado por criar coisas do zero, por expandir minha rede, por conhecer gente foda, por me desafiar a cada momento, por ver algo que eu construi sendo apreciado por outras pessoas, às vezes a nível nacional. Eu era movido na base do desafio e da conquista.

Nessa época ouvia alguns amigos me perguntarem: Como você faz tudo isso ao mesmo tempo? Como consegue? E eu simplesmente não sabia o que responder, para mim essa rotina era o normal. Eu simplesmente não conseguia ficar sem “fazer nada” ou relaxar com uma série. Eu gostava era de trabalhar, de construir!

Melbourne – A maior qualidade de vida do mundo

Mantive dessa rotina frenética até o final de 2015, até que ganhei uma bolsa para estudar durante 15 meses na Austrália. Do dia pra noite eu saí de uma rotina que me exigia 70h semanais para uma rotina onde eu tinha 15h semanais de aula e era isso, nada mais.

Me mudei da loucura do Brasil para um país que presa muito pela qualidade de vida, um país onde as pessoas gostam de simplesmente ir no parque, sentar na grama abaixo do sol e ficar conversando ou simplesmente se entreolhando.

Eu estranhei, estranhei muito! Não conseguia simplesmente ficar parado, mas era quase que obrigado, sendo que ainda não dominava a língua e não conseguia fazer muito mais do que ir para a aula. Foi como se eu tivesse sido forçado a simplesmente parar de fazer tudo que fazia e começar a apreciar pequenos momentos da vida. Contudo, eu não conseguia relaxar, tentava preencher meu tempo com cursos online, aprendendo a investir, com fotografia, criando blog, escrevendo.

Foi só lá pelo final do intercâmbio que comecei a me permitir relaxar e simplesmente pedir uma pizza com o pessoal que morava comigo, ver um filme, fazer churrasco e ficar trocando idéa, jogar um video game ou simplesmente ir dar uma volta na praia. Antes, quando estava fazendo essas atividades não relaxava, pois me vinha aquela sensação de “você deveria estar produzindo algo útil”. 

Comecei a me divertir com todas essas atividades, com o tempo livre e com tudo isso somado a qualidade de vida de Melbourne, eleita diversas vezes a melhor do mundo. Uma cidade com segurança, onde você pode andar na rua despreocupado, onde há verias atividades ao ar livre para as pessoas, onde o seu dinheiro vale muito e você consegue ter uma vida fenomenal ganhando um salário mínimo.

São Paulo – A loucura

O meu período na Austrália acabou e eu voltei para São Paulo. Confesso que estava ansioso pra voltar a minha rotina de antes e me sentir produtivo.

Novamente, do dia pra noite, minha rotina mudou completamente. Voltei a trabalhar na Fundação Estudar, dessa vez como analista, estava com algumas matarias na faculdade pra terminar e comecei a desenvolver alguns cursos com meu amigo Peirol na estag.io e no umporcento.club.

Foi como se de repente todo meu tempo sumisse e eu mal conseguisse respirar com calma. Tudo era tão corrido que eu olhava meu celular quando acordava e depois só conseguia ver a noite antes de dormir.

Senti um “baque”, comecei a querer minha vida na Austrália novamente, queria ter tempo para simplesmente jogar um video game, pra viajar, pra conversar com meus amigos e pra escrever.

Eu já não era a mesma pessoa que amava trabalhar aos finais de semana, eu continuava gostando de trabalho, mas também queria a tal “qualidade de vida” que eu tinha em Melbourne.

Minha mente começou a entrar em conflito, minhas visões de mundo começaram a se conflitar e entrei em uma espiral de descontentamento e tristeza por simplesmente não conseguir fazer o que eu queria, por não conseguir viver. Passei a pensar “não desejo essa vida que estou levando agora pra ninguém”.

Pra te dar uma idéia, uma noite que eu durmo muito, eu durmo 5h. Isso sem falar que não me recordo a última vez que consegui parar pra jogar um video game ou relaxar.

A Busca

Essa espiral em fez buscar por livros que falassem de felicidade, saúde e qualidade de vida. Comecei a ver filmes que me faziam refletir sobre o estilo de vida da nossa sociedade moderna e atualmente comecei a meditar. Tudo na esperança de encontrar um equilíbrio entre vida profissional e pessoal.

Comecei a me perder em pensamentos sobre o assunto e minhas conclusões sempre iam de encontro com a visão de mundo que tinha antes de Melbourne, por exemplo:

  • Antes: Quero trabalho muito, virar CEO e ganhar muito dinheiro
  • Atualmente: Quero ganhar uma quantia razoável de dinheiro e viver uma vida boa
  • Antes: O objetivo da vida é trabalhar e construir algo significativo
  • Atualmente: Devemos sim buscar construir algo significativo, mas sem deixar de aproveitar as pequenas coisas boas da vida
  • Antes: Como as pessoas podem desperdiçar suas vidas não fazendo nada de produtivo?
  • Atualmente: Como as pessoas podem desperdiçar suas vidas apenas com trabalho?
  • Antes: Como as pessoas se contentam com essa vida “mediana” de casa-trabalhinho normal
  • Atualmente: Como as pessoas se contentam com uma rotina onde só trabalham?

Como dá pra notar, eu fui quase que de um oposto a outro, em cerca de um ano e meio minha mentalidade mudou completamente. Se alguém me falasse qualquer uma dessas frases que escrevi no “Atualmente” ia pensar: “Isso é papo de vagabundo que não quer trabalhar”. Precisei passar 15 meses em um país do outro lado do mundo pra mudar esse mindset.

Como ser feliz?

No entanto, isso foi bastante produtivo para construir empatia, afinal eu literalmente me coloquei no papel de duas pessoas que seriam opostos. Me ajudou a enxergar como podemos estar errados e certos ao mesmo tempo, afinal eu estava certo antes e continuo certo agora, ambas mentalidades em traziam felicidade. Como isso é possível?

Um dos livro que li na minha busca para encontrar felicidade e qualidade de vida foi O Jeito Harvard de Ser Feliz, onde um professor de Harvard e pesquisador de felicidade fala como podemos ser felizes, e em resumo é: Pessoas com mindset de que são felizes, de fato serão mais felizes, por isso molde seu mindset para se sentir mais feliz.

Exemplo: Você vai para uma viagem de mochilão com alguns amigos, ou seja, sem conforto, todos sentem o mesmo tanto de dor no corpo depois das longas caminhadas, todos estão igualmente sujos, todos estão igualmente cansados, no entanto para alguns toda essa sujeira e exaustão é mais um motivo para estar feliz, enquanto outros começarão a ficar nervosos e estressados. Como está escrito no livro Zen e a Arte da Manutenção de Motocicletas:

“O desconforto físico só afeta a pessoa quando seu estado de espírito está mal. Quando isso acontece, ela se apega à coisa que lhe causa desconforto e lhe põe a culpa. Porém, quando o estado de espírito está bem, o desconforto físico não tem grande importância.”

Isso é tão verdade que antigamente eu dormia 4h ou 5h por dia estava súper bem, conheço pessoas que dormem de 3h a 4h e acordam extremamente bem dispostas para trabalhar cada vez mais. No entanto, hoje em dia não acordo com a mesma disposição quando durmo tão pouco.

Isso quer dizer que eu tenho que simplesmente ter um “mindset de felicidade” e pronto, estarei feliz? Basicamente sim, mas fazer isso é muito difícil. Nossa mente já está infectada por todo um modo de pensar, de ser e de viver que não conseguimos mudá-lo do dia para noite. Domar a sua mente é algo que exige muito esforço. Não basta acordar, olhar pro espelho e dizer: – Hoje você vai ser feliz no trabalho!

Não dá! No mesmo instante sua mente te mandará milhares de alertas falando que isso está errado e é uma cilada, consequentemente você não será feliz no trabalho e isso se refletirá no seu corpo e sentimentos, te deixando mais longe da tal qualidade de vida.

Para que essa mudança de mindset funcione, você precisa de fato mudar o modo como pensa. É preciso ir fundo! É necessário mudar o modo como você vê o mundo! No entanto, assim como ocorreu comigo, pra que isso aconteça, pode ser que seja necessário viajar para o outro lado do mundo, morar lá por 15 meses e mudar completamente sua rotina.

Hoje vivo com dois “Eus” dentro de mim, um pedindo qualidade de vida e outro pedindo trabalho. Estes dois Eus estão em um estado de conflito permanente e isso vem me impedindo de alcançar um estado de felicidade, afinal um me fala “Trabalhe” e o outro me fala “Carpe Diem”. Eles são contraditórios e estão nessa briga para ver quem ganha.

Sinceramente, não sei se a resposta para a felicidade está em fazer um desses Eus ganhar a batalha ou em fazê-los aprender a conviver um com o outro. Isso ainda irei descobrir, talvez só daqui a 15 meses.

É leitor, eu não tenho uma resposta de como ser feliz e ter qualidade de vida, no entanto resolvi escrever esse texto para me ajuda a refletir sobre o assunto e para que você, caso esteja em um dilema parecido, possa já partir do estado de reflexão de onde parei. Ou se já chegou a sua conclusão, que possa compartilhá-la comigo aqui. Se já pensou sobre esse assunto, deixa um comentário aqui embaixo que lerei com o maior prazer.

Um grande abraço, para os viciados em trabalho e também para os viciados em aproveitar o dia.

 

– Gabriel Vinholi


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