Passei uma boa parte deste meu final de semana lendo e estudando sobre a Geração Y. Algumas perguntas surgiram na minha cabeça, as quais busquei tentar responder e acredito que muitas delas podem ser úteis pra nos autoconhecermos melhor e com isso atingir melhores resultados em nossas vidas profi-pessoais (já explico).

Antes de começar queria lembrar que já abordei o assunto de autoconhecimento aqui no blog no texto Solidão como caminho para o autoconhecimento. Acredito que o processo de olhar para dentro é essencial, porém olhar para além de nossas fronteiras pessoais e compreender o ambiente que nos moldou pode nos ajudar nesse processo.

O mundo mudou

É óbvio que o mundo mudou nos últimos anos, porém muitos ainda não pararam para refletir sobre as implicações dessas mudanças. Vou compartilhar alguns insights que tive assistindo o vídeo abaixo onde o Murilo Gun entrevista o Sidnei Oliveira, que é um especialista em gerações.

Uma questão de idade, ou quem vai ser a novinha do futuro?

Lá nos idos de 1960, uma pessoa que chegava aos seus 40 anos pensava “já vivi 40 anos, quero viver mais uns 30 anos, depois disso o que vier é lucro“

Com os constantes avanços na área da saúde hoje uma pessoa de 55 anos em países desenvolvidos ainda tem mais 30 anos pela frente, e o “lucro” só vem depois dos 80~85 anos

Sabe quando a nossa geração vai falar que vamos ter o tal “lucro”? Seguindo essa tendência de avanços na saúde, isso vai acontecer quando atingirmos uns 70 anos, olharmos para o lado e compartilharmos esse pensamento com alguém: “Quero viver mais uns 30, depois disso o que vier é lucro“.

Sim, vamos facilmente chegar aos 100. Agora, imagine que se vamos chegar até os 100 como a aposentadoria vai funcionar?

Das duas uma, ou a aposentadoria como a conhecemos hoje, na qual você se aposenta com idade X e passa a receber uma quantia Y do governo, vai acabar ou só vamos nos aposentar lá pelos 80.

Pense em alguns impactos disto:

  • Se hoje as pessoas já são infelizes por trabalharem com algo que não gostam, imagine ter que trabalhar com algo que você odeia até os 80 anos?
  • Trabalhar até a “velhice”, juntamente com outras mudanças que estão ocorrendo, nos permite entrar no mercado de trabalho mais tarde. Não é incomum ver jovens entrando no mercado apenas com 25 anos e alguns até com 30.
  • Vai ser relativamente comum vermos as pessoas mudarem completamente de carreira pelo menos 1x, lá na casa dos 50, onde já terão atingido posições relevantes na sua carreira atual e se sentirão sem mais desafios, indo buscar isto em outro lugar.
  • As novinhas vão ter 45 anos. Já pensou que bacana encontrar umas novinhas assim no baile funk?

Uma questão de mudança de mindset, ou a nova espiritualidade

Espiritualidade contemporânea é a busca por propósito.

Existem várias pesquisas que falam que a maioria das pessoas é infeliz no trabalho (já vi pesquisas que variam de 60% até quase 90%).

Até aí tudo bem, por que para a geração antes da nossa o trabalho era simplesmente o local onde íamos para buscar dinheiro e poder viver aos finais de semanas e durante as férias. Nossos avós e alguns de nossos pais cresceram em uma época onde tudo era mais escasso, e o que poderia ser comprado era para dividir com mais 6 irmãos. Consequentemente, essa foi a relação que desenvolveram com o trabalho.

Por outro lado muitos de nós da geração Y, ou a quase geração do filho único, nascemos em um ambiente mais abundante e superprotegido, tendo mais conforto e mais presentes. Nossos pais nos mimaram nos dando o que eles não tiveram.

Isso se juntou ao mundo digital onde tudo o que queremos está em uma tela retangular na nossa frente (e por tudo entenda tudo mesmo, amizades no face, comprar nos e-commerces, filmes no netflix, música no spotify, até sexo no xvídeos).

Essa combinação deu origem a gente, uma geração mimada, que não sabe lidar com a frustração, não sabe resolver seus problemas, se sente entediada com facilidade e precisa de estímulos constantes. Crescemos acreditando que o mundo deve ser justo, bacana, reconhecer nossos talentos sem termos que prová-los e que somos muito bons e merecemos um emprego que seja diversão 100% do tempo.

Agora adivinha o que aconteceu com a gente no mercado de trabalho? Pois é, não aconteceu…

Alguns de nós ainda carregam fortes características da geração passada, a geração X, que queria subir rapidamente no mercado de trabalho e galgar até os pontos mais altos da hierarquia sem se importar com as consequências.

Contudo, outros não acham sentido em seus trabalhos e se sentem infelizes, só que com o agravante que não fomos preparados para lidar com essa frustração como nossos pais e avós. Alguns de nós estão tão desesperados que chegam a inventar ideias mirabolantes para poderem virar youtubers, pois simplesmente não aguentam ter um trabalho “normal”, como um menino que implantou uma bomba falsa no Jardim Botânico de Curitiba – Se dúvida veja aqui.

O resultado disso é que a busca por propósito se tornou a nossa nova espiritualidade. Se nossos pais e avós buscavam refúgio na religião, nós nos afundamos em seitas orientais e cursos que nos ajudam a descobrir nosso propósito de vida. Alguns vão buscar isso na meditação, yoga, filosofias e outros buscam em uma tonelada de cursos e coachs que surgiram nos últimos anos prometendo nos mostrar como descobrir nosso propósito na carreira.

A vida prof-pessoal, ou é bom você gostar do seu trabalha se não você ta f*****

Lembro que ingressei na universidade com um cara que trabalhava no chão de fábrica de uma empresa da região para poder se sustentar. A gente costumava conversar e lembro que um dia ele me viu meio preocupado na aula e perguntou o que estava se passando e respondi que estava preocupado com algumas coisas do meu estágio na Fundação Estudar, pois era o principal responsável pelo LabX, um programa de liderança, e precisava resolver várias coisas importantes. Nisso ele me virou e disse algo que não esqueci:

“Apesar de eu ter um trabalho CLT e bem pesado no chão de fábrica, pelo menos quando eu chego na universidade, apesar de cansado, minha cabeça pode se desligar do trabalho e consigo prestar atenção. Imagino como deve ser complicado para você que além de trabalhar tem que ficar se preocupando com trabalho depois que sai de lá.”

Essa é uma outra variável que tem que entrar nessa conta!

Hoje em dia a linha que separa a vida pessoal da profissional está ficando cada vez mais embaçada, pelo menos no que diz respeito a carreiras que não são “braçais” e exigem envolvimento e raciocínio, que creio ser onde a maioria pretende encontrar o tal propósito.

Isso se deve a características desse tipo de trabalho, onde você é o responsável por algo, e as “novas” tecnologias como celular e e-mail. E te digo, a tendência é piorar. Eu, que era estagiário, perdi as contas de quantos finais de semana tive que fazer algo do trabalho em casa, isso sem falar de dias onde meu dia de trabalho ia das 9am até às 9pm e finais de semana viajando pelo Brasil para facilitar LabX.

Mas sabe de uma coisa? Eu amava essa rotina! Eu de fato adorava cada coisa no meu trabalho. Adorava as pessoas fodas que trabalhavam do meu lado, adorava saber que trabalhava para entregar algo que acreditava e que tinha impacto na vida das pessoas, adorava o ambiente informal, adorava conversar com os jovens de alto potencial de todo o Brasil que eu coordenava no LabX seja fim de semana ou de madrugada (um abraço pros meus mentores e multiplicadores queridos!).

Eu tinha um trabalho com propósito e isso fazia toda a diferença!

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Uma outra passagem que me lembro muito bem, foi um dia que o diretor da Fundação Estudar estava contando sua história pra gente e uma das pessoas perguntou “A gente vê você trabalhando tanto aqui, como que você concilia sua vida pessoa e profissional?” Ao que, depois de pensar um pouco, como que surpreso com uma pergunta um tanto quanto óbvia, ele respondeu algo como:

“Nunca pensei nisso, para mim não existe diferença entre a vida profissional e a pessoal, é tudo uma coisa só, uma é extensão da outra. Não vejo meu tempo aqui na Fundação Estudar como a hora do trabalho e o tempo que estou em casa como a hora de relaxar. Não existe um eu-profissional e um eu-pessoal, existe um só eu e uma só vida que é profissional e pessoal”

Eu tinha o mesmo sentimento e torço para que você também se sinta assim no seu trabalho, pois a tendência é essa relação entre vida profissional e pessoal se estreitar cada vez mais até termos uma vida prof-pessoal. E isso vai ocorrer independente de você gostar ou não da sua carreira atual, sua vida profissional e pessoal vão misturar cada vez mais.

Se você não fazer o que gosta, além de trabalhar até os 80 anos, seu trabalho vai invadir seus finais de semana e férias. Essa é a vida prof-pessoal que nós da geração Y teremos.

A Carreira com Propósito X O Mundo Doente

Assista esse vídeo da BOX 1824, uma consultoria especializada em pesquisa e entendimento do jovem, intitulado “The Rise of Lowsumerism”, ou algo como A Ascensão do Lowsumerism.

Se não conseguir visualizar veja diretamente no link: youtube.com/watch?v=jk5gLBIhJtA

O vídeo nos mostra várias fatores que nos conduziram até o momento atual.

Somos uma sociedade doente e que quer consumir a qualquer custo, mais e mais. Descontamos nossa infelicidade nas compras. Nos endividamos para impressionar pessoas de que não gostamos. Compramos algo para auto-afirmar nossa personalidade e nosso jeito “único” de ser (oi?).

Essa sociedade está, aos poucos, se transformando graças a gente, a sonhadora geração Y. Coisas como economia compartilhada e capitalismo consciente estão emergindo e trazendo algumas alternativas, hoje não importa tanto o “ter”, mas o “ter acesso”.

Contudo, isso ainda está distante do ideal. Continuamos destruindo o planeta.

Nesse cenário eu pergunto. Como podemos ter uma carreira com propósito ajudando a destruir o mundo onde vivemos?

  • Como podemos nos sentir orgulhosos de trabalhar em construtoras corruptas que gastam muito mais dinheiro que o necessário para construir obras públicas? Dinheiro esse que é do povo e que poderia ser investido em mais hospitais e escolas, investimentos que poderiam salvar e transformar vidas.
  • E o que dizer de quem trabalhar nas grandes operadoras telefônicas que estavam liderando um motim para acabar com a internet ilimitada no país e acabar com o acesso de educação remota do Brasil e nos lançar em algo próximo a uma idade das trevas moderna?
  • E aqueles de nós que trabalham em empresas que apoiam o trabalho escravo, comprando de fornecedores que exploram crianças de 12 anos (e até menores) em jornadas de trabalho pesadíssimas? As de chocolate e as varejistas da moda são campeãs nisso.
  • E sobre quem vai para a industria alimentícia e vai fazer propaganda dizendo sobre o como a criança deve consumir aquele produto riquíssimo em açúcar todos os dias de manhã para aumentar nosso lucro?

Das duas uma: Ou assumidamente não nos importamos com essas coisas e só queremos ganhar nosso salário no fim do mês, ou a Dissonância Cognitiva faz o seu trabalho e nos permite dormir em paz.

Dissonância Cognitiva é um processo que ocorre com todos nós quando existe uma incoerência entre o que acreditamos ser o certo e nossas atitudes e comportamentos reais. A dissonância acha justificativas para esses nossos atos, permitindo com que consigamos ficar em “paz”.

Pense por exemplo em alguém que é contra o trabalho escravo, mas que trabalha numa varejista que usa trabalho escravo. Essa pessoa para conseguir ir trabalhar todos os dias e dormir quando chega em casa precisa se justificar e a dissonância faz esse trabalho, gerando ideias como “isso não é culpa minha, não sou eu que tomo as decisões da empresa, eu só precisava de um trabalho para me sustentar” ou “ah, isso não tem nada a ver, a empresa X não usa trabalho escravo, são nossos fornecedores que usam” ou ainda “Mas isso não é trabalho escravo, eles estão pagando um valor e tem alguém que aceita trabalhar por esse valor (mesmo sendo uma criança de 12 anos ganhando menos de $1 por dia)”.

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Estamos em cheque!

Por um lado vivemos em um mundo doente, onde a maioria dos empregadores que oferecem bons salários alimenta um ciclo de destruição do mundo. Por outro, precisamos de uma carreira com propósito que nos dê sentido para trabalhar até os 80 anos e levar uma vida prof-pessoal.

O que fazer? Quem poderá nos salvar? Quem poderá salvar o mundo?

Como encontrar uma carreira com propósito e salvar o mundo?

O primeiro ponto que quero ressaltar (e ele é muito importante) é que para ter uma carreira com propósito você NÃO precisa:

  • Ir trabalhar em uma ONG
  • Viver das coisas que a natureza dá vendendo sua arte na praia
  • Trabalhar com educação
  • Vender produtos orgânicos
  • Já que não descobriu o que quer fazer, ir buscar um curso de coach de 5 dias e começar a vender coach para ajudar os outros a se acharem

Você pode querer fazer essas coisas, mas não são os únicos lugares em que existem propósito e muitos jovens confundem isso e acabam se frustrando. Vi diversos casos assim na Fundação Estudar, gente muito boa, que poderia ter um futuro brilhante em determinada área, mas que acredita que só vai encontrar propósito em atividades como as que citei.

Você pode ter propósito virando pesquisador, trabalhando em uma fábrica de alimentos e até em um banco. Afinal, todos desejam usufruir dos benefícios da ciência, todos precisamos comer e todos queremos ter acesso às facilidades bancárias.

Se você quer trabalhar na AmBev e vender cerveja, que maravilha. Eu preciso te agradecer todo o dia que vou berber uma gelada. Minha vida seria mais triste sem você.

Uma carreira com propósito pode estar em praticamente qualquer setor, da educação até o cervejeiro.

Porém, algumas coisas se fazem importante na busca pela carreira dos sonhos:

  • Trabalhe em um setor que te interessa, que você tem paixão por aprender sem ser obrigado. Conheço gente apaixonada por pedras, por cervejas, por educação, por comportamento. Qual a sua paixão
  • Mais do que nunca a cultura empresarial é importante. Busque uma empresa que tenha valores compatíveis com os seus. Se você não apoia o trabalho escravo, provavelmente uma Zara da vida não vai ser uma boa opção.
  • Busque saber qual a visão da empresa. Onde a empresa pretende estar daqui a 20 anos? Combina com o que você quer para você daqui a 20 anos?
  • Tenha certeza que vai trabalhar em um ambiente que te agrada e com pessoas que você admira

Lembre-se e tenha plena consciência que NENHUM trabalho do mundo é legal 100% do tempo. Até ser um rock-star tem suas partes chatas, ou você acha que é legal ficar dando autógrafo para 5.000 pessoas ou não poder andar sossegado na rua?

Ter uma carreira com propósito não é só diversão, mas é ter um motivo maior que te dá forçar para atravessar as partes mais massantes do trabalho. E não, não podemos chamar nossa mãe para fazer as partes chatas, como alguns fazem depois de comer o jantar delicioso e deixar a louça pra mãe lavar.

Com certeza achar o trabalho dos sonhos vai ser um processo longo que exige muito autoconhecimento, pesquisa e experimentação. Não vou me afundar, até por que existem toneladas de cursos no mercado que se propões a te ajudar nessa jornada.

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Você deve estar se perguntando: Ok, estou no caminho para achar meu trabalho com propósito, mas como salvamos o mundo?

De fato, não sei, se soubesse deveria estar concorrendo para presidente da ONU (se é que existe esse cargo).

Mas uma coisa eu sei. Sem pessoas boas trabalhando nessas empresas que se permitem destruir o mundo e sem clientes comprando seus produtos ou elas mudam ou morrem.

Não deixe a dissonância cognitiva te afetar. Faça escolhas conscientes!

Algumas considerações ainda se fazem importantes:

  1. O primeiro passo é o autoconhecimento e isso é um processo longo, demorado e que exige dedicação.
  2. Para você poder escolher trabalho no futuro você vai ter que ser bom, muito bom. Da uma lida nesse texto que escrevi sobre a 4ª revolução industrial e por que engenheiros formados em federais e com ingles fluente não conseguem empregos.
  3. Para você não ter que aceitar qualquer emprego em situações emergenciais e acabar se vendendo com a desculpa de “eu precisava de dinheiro”. Lembre-se que é sua opção poupar e investir seu dinheiro ao invés de gastar com um celular novo. Dá uma lida nesse texto sobre como começar a investir.
  4. O mundo não tem um céu cor-de-rosa, feito de algodão doce e com pôneis saltitantes e que vomitam arco-íris. O trabalho vai ter suas partes chatas, você vai trabalhar com gente que te dá nos nervos, você provavelmente não vai ganhar o tanto que espera assim que sair da faculdade. Trabalhar vai exigir dias de trabalho de 16h, noites viradas e fins de semana dedicados a empresa, mas tudo isso vai valer a pena quando você encontrar algo que ama fazer.
  5. Se nada der certo, lembre que o empreendedorismo pode ser uma opção.

E o mais importante:

6. NÃO SE PARALISE SE NÃO ACHAR A SUA CARREIRA DOS SONHOS LOGO DE CARA!!!

Você só vai descobrir experimentando!

Além disso, o mercado é cruel, se você ficar parado 1 ou 2 anos e não tiver nenhuma boa história para contar sobre o que fez nesse tempo, provavelmente os recrutadores vão te olhar com maus olhos. Procure algo pra fazer e caia de cabeça, seja um projeto ou um emprego!

Se não apareceu aquele emprego dos sonhos assim que saiu da faculdade e precisa começar a trabalhar pense em soluções. Por exemplo, se quer trabalhar com educação e não conseguiu nada, por que não ir para uma empresa de outro setor que é conhecida por ter processos de gestão fantásticos, já pensou levar esse conhecimento para a educação, que é uma área carente de boa gestão? E em paralelo a isso que tal começar a dar aula em um cursinho comunitário?

O importante é não parar! Lembre-se daquela frase de Einstein

Viver é como andar de bicicleta, é preciso estar em constante movimento para manter o equilíbrio.

O texto ficou gigante, por hoje é isso, em futuros textos abordo o assunto de outras perspectivas.

Se quiser se aprofundar dá uma lida nesse livro do Sidnei Oliveira: http://amzn.to/27oFtYx

Abraço!

~ Gabriel Vinholi